Páginas

domingo, 9 de janeiro de 2011

#3

E do caixa eletrônico sacou um extrato poético. Sacou poesia do banco. Não podia acreditar. Nunca mais quis sair de lá de dentro.

Morreu afogado em navios de extratos poéticos bancários.

H.Reis

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Flatulando

E enquanto esses gases que prendo não aliviarem minha barriga, continuarei sentado nesse sofá marrom que pertenceu à minha vó Marieta.

Minha vó Marieta que era casada com vô Teodoro, que tinha problemas de flatulência. Acho que herdei isso dele, e de vó Marieta herdei o sofá. Velha boazinha mas rígida quando necessário.
Eu, quando criança, juntava-me com vô Teodoro e sentávamos no sofá. Soltávamos os gases presos, próprios para aquela ocasião, a ocasião de irritar a velha com nossos cheiros misturados na sala. Vó Marieta ficava macha.Ela mandava a gente chispar dali.

Agora, depois de 50 anos que vô Teodoro fugiu com uma meretriz que o deixava soltar seus gases onde quisesse; 43 depois de vó Marieta ter-se ido, eu solto meus puns à vontade.

Não solto gases, sou moderno : solto puns.

Vó Marieta deve estar agora se revirando no caixão, e vô Teodoro? Ah, aquele deve estar com sua meretriz no colo, sentado ao lado de nosso Senhor, soltando as flatulências por debaixo da calça de brim desbotado.

H.Reis

domingo, 2 de janeiro de 2011

Transparecer

Continuar.
Palavra que contém a nudez do nu.
Nu que é homem, que é bicho-ser
No contínuo ser do nu, a vestimenta cai leve
E voa , e vai...
No ar

E cai.
Cai no chão gelado, chão nu,
Nu de poeira , de células mortas que caíram da pele nua do bicho-ser.
No contínuo do pó a nudez continua,

E assim o homem
(o bicho-ser)
descobre que tudo é nu.
Tudo é nudez
E só assim se despe de suas máscaras
Antes vestidas, quase grudadas.

H.Reis

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Verdade no Asfalto

Eu quero um suicida que se mate e que se explique.
Não quero os covardes que se matam sem razão;
Quero saber se morreu de amor, de decepção ou xilique.
Mas não se sofreu antes e fez da vida arrastão
Para arrumar uma desculpa e dizer que ''viver não!''

Quero uma meretriz altiva e elegante,
Daquelas que humilham as mulheres ricas;
Fazendo com que sintam que não existia nada antes.
Quero a puta orgulhosa de si, mesmo que atenda pelo nome de Chica.

Quero um mendigo que peça sem vergonha
Que implore sem fingir, sem compaixão
Que deseje o dinheiro do burguês, do típico ''sem-vergonha''
Que deseja a mulher do amigo em seu colchão.

Enfim, quem é impuro? Quem é mau? Quem é pior?
O suicida que, por ele, tem razão?
A meretriz que vende seu calor?
Ou o mendigo que, sujo e verdadeiro, dorme no chão?

Matemos todos, finjamos não existir problema!
Mas, que fique claro, bem claro,
Que eles só são eles no poema
Por que nós os inventamos nessa vida,
E os obrigamos a viver nesse mundo seco e amaro.

H.Reis

Momento Manuel


Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira

domingo, 19 de dezembro de 2010

Onde tudo começa

Tinha um caminho no meio da pedra.
Caminho arriscado, traçado, marcado.
E assim, quanto mais rochas se empedrava,
Mais um caminho no fim se formava-
-A Persistência.

Até que os caminhos juntos formaram um só.
E como um coração que procura a metade
E acaba por achar e se completar,
Os caminhos chegaram numa estrada.
-A Esperança.

Estrada grande, estrada finita.
Até que encontrasse alguém para infinitá-la
E num segundo está aqui o descobridor -
O Mundo!

Olhe no olho do companheiro frio,
do companheiro inglês que não encara,
E encontrarás uma pedra, um começo de caminho-
A Vida!

H.Reis

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Prosa e poesia

Prosa não consigo mais.
É como um pássaro que acena,
E vai embora,
Deixando saudades imensas.

Deixou um filhote,
Um filhote que sabe voar,
Mas não lembra.
Um filhote estático no galho.

O pequeno olha ao redor.
Vê seus irmãos alçarem vôos.
Dos mais lindos aos fracassados
Mas são vôos, são prosas.

Agora sei que prosa não é vôo
É contemplação, é assovio.
Meu pequeno voa por dentro,
Na mais linda poesia.

H.Reis

domingo, 28 de novembro de 2010

Com licença*, José Paulo Paes e Vinícius Reis

A Casa

Vendam logo esta casa , pois está cheia de espíritos maus.

Na cozinha, há uma feiticeira que faz poções venenosas.
Na copa, uma criança segura um prato fundo sempre a esperar um mingau.
Na biblioteca, um avô lê seus poemas feitos na adolescência.
Na sala de estar, uma louca adotada aperta incessantemente as teclas pretas do piano.
No quarto azul, um bebê chora mágoas das vidas passadas.
No quarto cor-de-rosa, a avó relê o caderno de receitas que nunca usou.
Na sala de visitas, o jardineiro lembra triste das flores que morreram ontem.
No porão, a mãe chora pelo amante que morreu na 1ª Guerra.
Na varanda, uma pomba jaz.

A pomba era da criança que está na copa. Seu estômago ronca mas não dorme. Fica acordado à espera do mingau.
Vendam logo essa casa, vendam-na depressa ou despeçam a feiticeira, senão a criança jazerá. Jazerá como a pomba, que morreu de fome, fome de bondade, fome de paz, fome de vida.


H.Reis

*licença poética

sábado, 27 de novembro de 2010

A culpa é do Tempo

Num segundo acontece tudo que a História reprimia.
Num segundo toda a humanidade esquece príncipes,
Num segundo Napoleões não existem mais,
Num segundo Ana Bolena vive como Catarina.

Num segundo Hitler esquece judeus,
esquece sudetos, câmaras,
esquece canhões, tiros e inconvêniências,
esquece de matar.

Num outro segundo bem próximo,
Stalin joga um carteado com Lênin;
Fidel solta as rédeas da linda Cuba,
cubanos livres!

Numa junção de segundos suspensos,
Africanos se esbaldam em banquetes naturais;
Coreanos são todos amigos, sem distinção;
Europeus deixam de ser belicistas;
Americanos esquecem metrópoles.

Mas , o problema é que,
Essa ''junção de segundos suspensos''
pode vir a ser um minuto.
Um minuto é muito tempo
Pr'um humano pensar só em delícias.

Um minuto corrompe o homem;
Vê a vida feita de segundos?
Não, pois existe o relógio;
O relógio que marca um minuto.

Um minuto já faz a História;
Já faz a má História;
A sangrenta História;
A nossa História.

H.Reis

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Morre-se uma vida

Antes que o dia arrebente,
Antes que o frio se esquente,
Antes que o cérebro deixe a mente,
Antes que o filho nasça secamente.

Antes que as guerras fiquem na memória,
Antes que a paz deixe a História,
Antes que os maus mereçam a vitória,
Antes que não exista mais nenhuma trajetória.

Antes que a morte vire forma de vida,
Antes que a pele vire comida,
Antes que a terra seja banida,
Antes a verdade se torne falecida.

Antes de tudo e,
Num estalo de dedos,
Num piscar de olhos,
Num beijo de amantes
A vida se transformará,

A vida enlouquecerá,
A vida esquecerá,
A vida abandonará sua condição de vida
E torna-se-á humana.

H.Reis

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

#2

Num tempo em que buscar mais é buscar menos, num tempo em que doar-se não significa nada, eu amo. Eu amo os feios, eu amo os órfãos, eu amo os brutos; eu amo quem não sabe que é amado, mas quem sabe que precisa e que vale a pena viver nesse tempo, nesse tempo feio, bruto e sem pai nem mãe.

H.Reis

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Criança é fogo

Cotinha e a nova vizinha

Em nossa casa tinha um galinheiro enorme que até patos e marrecos se misturavam com a galinhada. Eduardo adorava aquela barulheira, acordava com o cocoricó de manhã e logo ia lá dar milho às aves custosas. Eram muitas as aves, mas Edu, particularmente, gostava mais de uma: Cotinha.

Cotinha era uma galinha d'angola arisca, que vivia correndo e fazendo bagunça pelo terreiro. Edu gostava dela, tenho certeza, exatamente por esse jeito dela que correspondia ao dele, menino arteiro. As pintinhas brancas espalhadas pelas penas pretas o divertia. Várias vezes o peguei, agachado no chão de terra do terreiro,contando as pintinhas da querida pintadinha, mas ele desistia logo depois. Sua inquietude e hiperatividade não o deixavam chegar nem em 15 pontos brancos.

Mudou-se então, nesse tempo, para perto de nossa casa uma vizinha nova; uma moça que havia vindo do Mato Grosso e não tinha parentes por perto.Um detalhe: tinha vitiligo por todo o corpo. Edu e eu, num dia, enquanto voltávamos da escolinha para casa, avistamos a tal nova vizinha sentada no passeio rente ao seu portão. Cumprimentamo-nos, e eu, como sempre quero conhecer quem mora perto de mim, fui tentar puxar assunto e disse:

- Olá, vi que você se mudou pra cá faz pouco tempo. Como é seu nome?

- É, hoje faz uma semana que cheguei aqui. Meu nome é Conceição, mas pode me chamar de Cotinha, todo mundo me chamava assim lá em Campo Grande; sinto-me mais à vontade se me chamar assim.

Eu ia responder á moça, quando Edu, que se encontrava distraído, olhando os passarinhos e os desenhos que as nuvens formavam no céu, quando ouviu o nome familiar, virou-se logo para a nova mulher e disse, cheio de entusiasmo e novidade:

- Cotinha? Nossa, que legal, moça. Minha galinha também chama Cotinha. Vamo lá em casa procê ver ela! Sabia que cê até parece com ela um pouquinho? Essas marquinhas brancas aqui.

Criança é fogo!

H.Reis

Bye, Lets

Queridos seguidores, venho aqui para dar um aviso um pouco triste:
Nossa companheira Lets saiu do GDL. Sim, ela não faz parte mais dos bastidores desse nosso mundo verde e azedo/doce no qual eu escrevo sempre.
Lets continua minha amiga, continua escrevendo e surpreendendo a todos com seu talento que ela insiste em dizer que não existe.
Assim como toda pessoa que vai, vai para algum lugar, Lets também foi, foi para o Livros e Chaves, seu blog novo que promete bastante.
Aqui está o link, entrem lá e aproveitem: http://livrosechave.blogspot.com/

H.Reis

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Casa amarela, menina cega

Numa casa amarela bem velha daquela rua de pedra morava uma menina cega. Todos tinham dó da menina por ela ser cega, por ela não poder ver o mundo, as cores e a natureza delicada de sua cidadezinha.

A menina não sofria por não ver. Ela era satisfeita por poder sentir delícias comestíveis, delícias ouvíveis, tocáveis e olfativas. A menina, na realidade, não via mesmo, mas enxergava. Enxergava mais que muitas pessoas com olhos que viam muito bem. Enxergava o bem e o mal. Enxergava a vida em si, e para isso - muitos de nossos contemporâneos ainda hoje não perceberam tal detalhe - e para isso não se necessita olhos, boca, nariz ou ouvidos. Necessita-se apenas uma alma que saiba amar de verdade.

H.Reis

Lágrimas na estação

No último dia do adeus, da vida, da morte e da borboleta invisível ao meu coração, ele partiu.
Voou ao longe, alçou um voo altíssimo e me deixou;
com a borboleta e o coração na mão.
Os olhos ainda estavam no lugar, mas o trem já tinha comido metade do trilho ferrenho, ferroso, de ferro.

H.Reis

sábado, 6 de novembro de 2010

Morenice aguda

A Morena que te olha, a Morena que não te vê.

Que é tu pra achar que a Morena olharia pra você?

A Morena olha pro invisível, a Morena olha pro céu.

E o queixo dela fica a aparecer.

Ela prefere te mostrar o pescoço moreno

Do que te encantar com olhos de cigana.

Nada oblíqua, nada dissimulada.

Somente linda e delicada.

H.Reis

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Andança

Acompanho Drummond,
que me leva a ruas de Itabira,
A ''Aniversário'' e a ''Tardes de Maio'' perdidas.
Enquanto andamos reparo em sua calva cabeça.
Cabeça de muitas ideias,
Cabeça de muitas vidas,
Cabeça de um só Drummond.
Nunca calva de ideias ou palavras.

''O Vestido'' que traz nas mãos é mesmo seu.
Não lhe serve,
Não me serve,
Serve a quem?
Ao poeta invisível que perdoa a traição,
Que se perde no amor imenso.

Drummond correu,
Dobrou a esquina da rua estreita.
Nunca mais o vi.
Itabira perdeu seu artista.
''O Vestido'' ficou em minhas mãos.
Só agora ele me serve.

H.Reis

domingo, 31 de outubro de 2010

#

Qué es el miedo? El miedo soy yo sin consciencia o duda. O sea, el miedo soy yo sin yo.

H.Reis

terça-feira, 26 de outubro de 2010

F de Consolação

Chico, Clarice, Caetano
Todos eles começam com C
Helena, com um simples mortal H
Um H que é ponte,
Que é vínculo,
Mas não tem som, fonema ou fama.

O que me consola um pouco é que Chico se chama Francisco.

H.Reis

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Segredo Escarlate [parte 1]

Da porta de vidro da entrada eu a via. Lá estava ela, deslumbrante como sempre, bem no centro da sala redonda com lustres antigos.
Seu vestido vermelho de alta costura combinava perfeitamente com seu caráter: provocante, mas delineado e preciso.

Do primeiro passo da porta não conseguia ver nitidamente seu rosto, mas sabia que não me decepcionaria. Chegando mais perto, com meus passos leves- pois temia que o encanto se fosse em um piscar de olhos - pude ir percebendo mais claramente a perfeição de sua tez branca e pura. Ela não havia corrompido seu rosto com uma maquiagem pesada. Só usava um batom também cor de sangue como o vestido. O intervalo entre o vestido e a boca era perfeito para que o vermelho não ficasse excessivo ou exagerado.

- Querido, como está elegante! Você realmente superou minhas expectativas!, ela falou com aquela voz delicada e fina e deu uma risada gostosa jogando a cabeça para trás.

- São seus olhos, meu amor. Se tem alguém aqui que está deslumbrante é você!, falei isso pegando sua mão direita e a fazendo girar no centro da sala redonda com lustres antigos.

- Oh-oh! Eu não disse que você está deslumbrante, disse que está elegante. É diferente; ela disse com um rosto sério, depois a face semblanteou ironia e ela riu de novo. Não se assuste, meu bem, estou mesmo um pouco fora de mim. Bebi um drink enquanto você não chegava.

- Ah, sim. Tudo bem, prefiro mesmo você assim, mais livre e divertida. Quando não bebe, você chega a ficar séria demais.

Ela não parece ter dado a mínima importância ao meu comentário e disse:

- Vamos ao jardim? James nos servirá algo gelado enquanto contemplamos o outro e as flores lá de fora.

- Claro.

O caminho da casa até o jardim era curto e ela ia na minha frente. Não ia fazer sala pra mim ou me fazer sentir uma visita, eu já previa.

Chegando ao jardim, avistei logo a mesa e as cadeiras de ferro pintadas de branco. Aquele cenário já fôra palco de muitas conversas e risadas. Sentamo-nos e esperamos James chagar com o ''algo gelado''. Enquanto esperávamos, Beatrice acendeu um cigarro e me ofereceu.

- Quer, querido? Você está precisando soltar umas baforadas de fumaça pra tirar esse peso da sua alma. Se não se descarregar, não vai aguentar por muito tempo. Vamos, pegue um.

Não ia retrucá-la. Não valia a pena. Os argumentos dela eram sempre mais fortes. Peguei o cigarro, acendi, mas não fumaria, deixaria ele se queimar por inteiro até que acabasse.
James chegou com os drinks na bandeja de prata que reluzia.

- Beatrice, pensei que era um chá gelado! Você sabe que eu não bebo, não fumo, não tenho vícios! James, por favor, leve de volta esse àlcool e me traga um chá, nem que seja de carqueja.

Beatrice riu mas não reagiu negativamente. Esperou James desaparecer e disse bem devagar e num tom desafiador:

- Não bebe, não fuma, não tem vícios, mas tem um segredo. E eu sei qual é. Desde o dia que me contou, Harry, tenho uma visão um pouco perversa de você. Nunca mais será o mesmo pra mim.
Por que fez isso, meu amor? Eu te amava um pouco mais antes.

Do drink que ela havia tomado antes de eu chegar não haviam mais resquícios, ela estava sóbria e lúcida. Falava a verdade. Eu já havia percebido seu afastamento de mim desde o dia que havia contado a ela meu segredo. Minha expressão foi ficando vermelha, sombria e enraivecida com a revelação do que antes era só uma observação minha. Eu não poderia suportar aquela indiferença, nem que fosse mínima ou reprimida.

Beatrice bebeu um gole do drink rosado. O líquido desceu pelo interior de seu pescoço fino e aquilo me chamou a atenção. Minha raiva era latente, pulsante e interminável. Sem pensar, levantei-me bruscamente da cadeira de ferro e fui com minhas mãos em direção ao pescoço de Beatrice. Ela não teve tempo de reagir.

Matei-a ali mesmo, no centro do jardim, perto do conjunto de ferro pintado de branco. Nos pés da cadeira que ela estava sentada há alguns minutos atrás, haviam gotas respingadas de sangue.

Depois de me dar conta do que havia feito, comecei a observá-la. O colo de seu seio estava molhado com o sangue fresco. Não havia mais o intervalo de pele branca entre o vestido e a boca. Tudo tinha cor escarlate. Os lábios vermelhos - que me diziam coisas loucas e ás vezes verdadeiras - estavam abertos fazendo com que o rosto demonstrasse uma expressão de consolo tardio. O corpo sem vida deitado no verde era sensual mesmo que sem pose premeditada. Beatrice nunca esteve tão linda.

Quando me levantei, cansado e aliviado, sentei-me na mesma cadeira de antes. Respirei fundo e observei a taça na qual ela havia encostado a boca minutos antes. A boca carnuda e maravilhosa. Tão presente e viva. Ela deixou a marca da boca desenhada no copo e o drink pela metade.

Foi melhor matá-la. Não suportaria ela sentindo a cada dia seu amor por mim se esvair mais. Não suportaria que ela me amasse menos que antes. Eu queria aquele amor completo e inteiro. Perfeito e intacto. Pelo menos agora ela não me amava nada e meu segredo estaria para sempre guardado e intocável em seu corpo cor de leite. Em seu corpo provocante, mas delineado e preciso assim como seu caráter que lhe custou o silêncio e a vida.

H.Reis

terça-feira, 19 de outubro de 2010

As sobremesas da vida

Pessoa mais caridosa que ela não existia. Mais meiga também não. Mais bonita se encontrava sim, mas ela não necessitava dessa beleza física, efêmera e tão visual. Era assim minha vó Amélia.
Sempre gostei mais de vovó Amélia do que vovó Dulce. A razão eu nunca soube. Acho que nossos anjos da guarda se davam melhor.

Os bolinhos de chuva feitos por ela sempre me aguardavam quentinhos em cima da mesa de madeira quando eu era criança. O avental preso nas costas dela nunca estavam impecáveis, ela sempre o molhava lavando a louça ou sujava de açúcar, aquele pra polvilhar os bolinhos. Seus abraços eram gostosos e ternos, e eu, que tinha a altura da cintura dela, quando a abraçava, fazia com que minhas bochechas encostassem no açúcar para que eu, depois, pudesse adoçar um pouco a língua.

Os almoços organizados por ela não podiam sair melhores. Era uma fartura, uma gostosura dessas que só a Sua Vó faz com que tudo dela tenha. Eu, mesmo que estivesse sentado ao lado de mamãe para almoçar, na hora da sobremesa corria pra cadeira ao lado de vovó e, enquanto comia qualquer um daqueles doces maravilhosos preparados por ela, ouvia suas histórias de quando era menina e fantasiava viver naquela época.
Meus domingos não podiam ser mais agradáveis.

Fui crescendo, vovó envelhecendo mas nunca perdendo a graça ou a ternura. Sua lucidez parecia intocável. O ritual de me sentar ao seu lado na hora da sobremesa continuou. As histórias mudaram, ela não me contava mais sobre sua infância. Contava agora sobre suas artes na adolescência e suas escolhas na fase adulta. Eu me deliciava do mesmo jeito. História de vó parece ter sempre um toque de magia. Nunca me pareceu que ela houvesse feito alguma coisa na vida da qual tivesse se arrependido ou percebido que foi mal ou errado. Ela era perfeita.

Certo dia, eu, já com 27 anos, sentado ao lado dela naquela nossa hora sagrada, a disse:

- Vovó, a senhora está sempre a me contar coisas boas que fez, que viveu. E as coisas ruins? E seus arrependimentos? Nunca praticou um ato falho?

- Meu querido, eu esperava que um dia me fizesse essa pergunta. Se não a fizesse, confesso, a julgaria um tonto. Mas te dou um conselho: ''nunca se deve praticar um ato que não possa ser narrado durante a sobremesa.''

H.Reis

sábado, 16 de outubro de 2010

O pior dos pesadelos

A vontade de fazer xixi era maior que qualquer coisa. O voo já tinha sido anunciado e sairia em torno de um minuto. Oque fazer se o banheiro era longe, as malas eram muitas e o tempo mínimo?
A solução mais simples nunca vem na cabeça de um desesperado, ele só consegue pensar no que vai dar errado.

Pensou, hesitou, olhou para o caminho do banheiro, voltou os olhos para as malas e franziu a testa em sinal de reprovação a tudo: ao suco de uva que bebeu demais em casa, ao banheiro complicado e ao seu exagero em trazer tantas roupas só para passar uma semana fora. Esse processo durou uns oito segundos, só tinha agora 52. Por um instante, que não era um, eram cinco, veio a solução mais óbvia(aquela mais simples) : usar o banheiro do avião.

- Mas é claro! Como eu não pensei nisso antes?

Pegou as malas de qualquer jeito e as saiu arrastando pelo longo caminho do aeroporto. A bolsa de ombro que levava quase caiu, o salto quase quebrou e a manga da blusa de frio tapava o relógio de pulso, mas ela não ligava, só se importava em chegar no avião, arrear a calça, sentar e fechar os olhos.

Faltando 30 segundos, segundo suas contas ( que não deveriam estar lá bem certas), ela avista a uns 25 metros uma fisionomia conhecida, daquelas que nunca se esquece (como o dono da padaria em que você, com cinco anos, comprava bala sempre que seu pai te dava 50 centavos ou a empregada legal da casa da sua amiguinha). Mas não era nenhum dos dois; seu Jaci já havia de ter morrido há muito e Jucicleide voltou para o Pará. Quando chegou mais perto viu que nunca havia visto aquela pessoa na vida. Aquilo deveria ter sido alucinação.

Entrou no avião. Nada mais poderia impedi-la de chegar ao banheiro agora. Os metros eram poucos, os centímetros ralos e o caminho livre. Deixou as malas em qualquer lugar e foi direto ao banheiro. Chegou lá como se tivesse passaporte para o paraíso, mas havia uma coisa: a fila não era pequena. Quer dizer, era, tinha duas pessoas, mas para quem está apertadíssimo, não existir ninguém no mundo que ameace a chance de ser fazer O xixi, é a melhor opção.
Só para piorar a situação, alguém, vindo de trás, tropeça e acaba por cair em cima de nossa protagonista, que depois disso não aguentou e soltou a bexiga, ali, no chão do avião mesmo.

Aquela posição de estar deitada, aquele molhadinho no pano, e aquela sensação de não saber onde está, fazia ela lembrar uma coisa bem familiar: xixi na cama.
É, o sono acabou, mas o aperto também.

H.Reis


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Continue precisando

Um dia você não vai mais precisar chorar; não vai mais precisar fingir gostar de quem não gosta; não vai mais precisar dar bom dia ao caixa da padaria; não vai mais precisar parecer achar graça no idiota; não vai mais precisar obedecer ao seu superior; não vai mais precisar renunciar das suas coisas por causa de alguém; não vai mais precisar ouvir aquele seu amigo que insiste em reclamar da vida; não vai mais precisar dar conselhos a quem necessita; não vai mais precisar dormir pensando se seu filho está bem na rua; não vai mais colocar o lixo pra fora ou ouvir a buzina atrás de você no trânsito caótico; nem mais ver a inveja do infeliz; mas quando você não precisar mais de fazer tudo isso, você estará morto, pode ter certeza.

H.Reis

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pequena (in)constante

Cruz e Sousa gostava de névoa;
Baudelaire, de prostitutas e mendigos;
Machado gostava de Helena;
Helena gosta de você.

Sabino gostava de Belo Horizonte;
Clarice, nem sei se da Ucrânia;
Páris gostava de Tróia de Helena;
Helena gosta de você.

Elis gostava de grito;
Caetano gostava de fantasias;
Chico gostava Pedro pedreiro;
Helena continua gostando de você.

H.Reis

domingo, 3 de outubro de 2010

Criança é fogo

Presente grego

Eduardo brincava na varanda com os primos que haviam acabado de chegar. Nós, os pais do pestinha, estávamos fazendo sala para minha cunhada e o marido e com os mesmos assuntos de sempre. Chatos e enfadonhos por sinal.

Minha cunhada, porém, veio com um assunto novo que me surpreendeu:

-Helena, esse quadro que demos a vocês de casamento mudou de lugar por que? Lembro-me que da última vez que estivemos aqui ele estava na parede azul da copa, perto da mesa.

-Ah, eu gaguejava tentando arrumar uma explicação, Eduardo, que... que rabiscou esta parede aqui, então colocamos o quadro em cima justamente para tapar o desenho.

-Ah, mas então temos que dar a vocês outro quadro para colocarem lá na parede azul da copa, por que sinceramente, falta uma decoração ali e esse quadro ficava mesmo melhor lá. Vou conversar com a mesma pintora que fez este aqui e ela fará outro, ainda mais bonito , para colocarem na copa, tá bom?

- Não, não precisa Juliana, por favor, fico até com vergonha.

-Ah, mas ia ficar tão bonito... Não diga não,é presente e pronto.

Fiz uma cara de falsa agradecida e olhei pra meu marido ,que, com o olhar, dizia pra eu não falar mais nada e aceitar logo o presente antes que sua irmã começasse a discutir, e nós sabíamos bem que ela era escandalosa.

As crianças enfim cansaram de brincar e vieram para dentro, estavam cansadas e ofegantes de correr e então Eduardo levou todo mundo pra tomar suco. Depois do suco tomado, coloquei Eduardo no meu colo e dei um beijo, precisava aproveitar a época em que ele ainda cabia no meu colo e que ainda não reclamava dos meus beijos em público,afinal, já estava com seis anos. Enquanto estava sentado ali em meus joelhos e mexia no meu cabelo, ele virou para trás, deu uma olhada desconfiada na parede, cerrou as sobrancelhas, voltou-se para mim e perguntou:

-Mamãe, por que toda vez que a tia Juliana vem aqui em casa você coloca esse quadro na parede?

Criança é fogo

H.Reis