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sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu Faísca

Eu sou morena,
Eu sou menina,
Sou quase mulher.

Eu sou dos olhos
Sou da boca,
Sou carvão.

Deixo marcas de lábios, pele,
Luar, vida, meia-morte, solidão.

Minha caneta é mais fraca,
E por isso não exprime
O desejo e a força
Que me meu carvão em ti imprimiria.

Moro em ti, habito em nós.
Há espaço pra minha boca, pro meu carvão
E pros meus olhos sagazes.

Que te deixam encabulado só de encará-los.

H.Reis

terça-feira, 15 de março de 2011

De Henrique Vaz

Helena menina
Helena morena
Helena mulher

Helena rima
Helena poema
Helena me quer?

(De Henrique Vaz para Helena Reis)

domingo, 13 de março de 2011

Revolução

Produzo poemas em minha cabeça
assim como tecidos em teares na Revolução Industrial
É rápido, veloz, inacreditável, esquecível.

A poesia, matéria prima de meu ''tecido'', é viva
é voz, é pulo, é pão.
Sustenta-me o tempo todo,
sustenta o ar e o coração.

Meus teares(meus neurônios) não se cansam,
não estragam, mas envelhecem aos poucos.
Aproveito-me dessa velhice, dessa experiência que eu não peço.
A dor, a tristeza e as profundas sensações vêm junto.

Meus poemas não exploram ninguém,
não matam crianças, não cansam as mães, não roubam os pais.
Só vivem no mundo, na esperança de serem lidos, vividos
odiados, amados, copiados...

Meus poemas viram gente.
Tem sentimento puro e razão.
É gente rápida, é gente veloz
É gente que mexe na História,
É gente inacreditável,
É gente inesquecível.

H.Reis

terça-feira, 1 de março de 2011

Beijo guardado

Tenho aqui do lado de minha casa vizinhos barulhentos. Vizinhos barulhentos que reproduziram filhos barulhentos. Filhos tais que vêem para debaixo da minha janela brincar de esconde-esconde à noite. Sempre achei essa brincadeira à essa hora muito estranha - minha mãe mesmo, quando eu era criança, não me deixava brincar disso nesse horário, dizia ser ''muito perigoso''.

Até que nesse domingo passado à noitinha estava eu a vagar pela casa, sem nada pra fazer ou pra ver e então resolvi admirar minha paisagem da janela. Não que seja grande coisa - um prédio pra lá, outro pra cá e umas árvores incrustadas nesse meio- pra não poderem dizer que não há verde por aqui. Debrucei os braços no parapeito incômodo da janela e depois de mirar alguns minutos minha paisagem individual, comecei a ouvir uns sussurros.
Custei para conseguir identificar de quem eram aqueles barulhinhos que vinham de debaixo do meu parapeito.
Prestei bem atenção. Eram o resultado da reprodução dos vizinhos barulhentos, mas pareciam que ali se encontravam em versão discreta 2.0.
Parecia ter ali três pré-adolescentes, pois contavam a idade um para o outro:

-Eu tenho 11 e você, Gustavo?
-Eu também, respondia Gustavo.
Gabi, sem ninguém perguntar, disse ter dez.

Gustavo, depois de um momento de hesitação ansiosa e nervosa, perguntou a Emanuele:

- Cê já beijou na boca?

Emanuele, dando uma de boa samaritana, desviou o assunto:

- Minha mãe disse que me deixa namorar em casa só depois dos 12. Falta menos de um ano, deu um riso assanhado e prosseguiu: mas enquanto isso eu beijo no cinema.

Gustavo abriu bem os olhos, e depois voltou ao normal. Não podia dar bandeira, Emanuele nunca poderia saber que ele não havia ainda beijado, muito menos no escuro de um cinema.
Depois de ouvir estupefata a revelação de Emanuele, Gabi percebeu que estava sobrando ali; agarrou sua boneca de pano e desistiu de brincar de esconde-esconde naquele espaço, com aquelas companhias.

Emanuele, menina faceira e bem atrevida, tinha olhinhos pretos que nem a noite. Olhou Gustavo com ternura, tentando quase que seduzi-lo. Gustavo não precisava mais de sedução. Só de saber que a menina já tinha beijado, ainda por cima no cinema, ele já estava encantado. Encantado mais pela precocidade dela do que por qualquer outra coisa.
Depois que ela percebeu que seu olhar raro não havia provocado no menino nenhuma reação distinta, Emanuele partiu pro ataque:

- Quer ir no cinema comigo?

Gustavo nem pronunciava palavra. Não havia meios. Pegou na mão de Emanuele, chegou o rosto perto do dela e quase encostaram os lábios. Mas não. Gustavo se conteve. Estava guardando o primeiro beijo pro escuro do cinema.
O ''pega'' da brincadeira já havia desistido de procurá-los depois de ouvir de Gabi:

- Eles tão ali atrás daquela árvore, mas não vai lá não!!!

Agora eu entendi por que mamãe nunca me deixou brincar de esconde-esconde num escurinho, nem que fosse da noite e não do cinema.

H.Reis

Tu e eu em pensamento

Será que aos olhos alheios sou o que sou aos olhos meus?
Será que sou o que quero ser ao me expor ao olhar teu?

E será que danço - e meu corpo é o mesmo
Será que balanço ao cair no solo quente?

E será que minha feição é a mesma,
Será que não me desfaço ao abrir meus poros a ti?

E minha pele? Mantem a mesma frescura de quando estou sozinha a pensar em ti?
A me tocar pensando em ti... E suar ao lembrar de ti?

Não sei , não quero mais saber

Acho que sou mais bonita e amada somente ao me imaginar pra ti.

H.Reis

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Morena dos olhos.

''À minha querida companheira de poemas e contos incansáveis, de fracassos reconciliáveis, de histórias inacabadas, de romances planejados, de capas arquitetadas, de críticas condenáveis e de uma sinceridade completamente pessoal.''

Vinícius Reis


A cada palavra, morena,
Tu floresces,
Aspirante, e emerges,

Bailas nas trevas bronzeadas
Da própria pele,
Invocando meretrizes,
Outrora, velhas virgens,
Proclamando a história do campo,
Sofrendo por Sabará.

Menina doida que só
Pelo menino da rua ao lado,
Pelo pião que tens guardado,
Pelas cartas que tens te feito chorar,
Pelos versos que vos faz chorar
Por todas as mulheres que tens que guardar...

Ah, morena!
Podes saltar, rodar,
E perder as pedras dos teus vestidos.

Derrubes ao sabor doce da tua boca
As gotas ácidas do teu pensar.

Foste uma boa mãe,
Não tão boa esposa,
Porque não quiseste casar
À moda do povo

E acendeste o alarido,
Das velhas loucas fofoqueiras.
Das cidades de pedra
Das panelas de barro,
Tudo dentro de ti,


Como um velho cheio de anedotas,
Morena, brincaste contigo
Perdida no mundo das palavras,

Mas de um único poema.

Insistes em escorregar
Entre dedos já doídos.
Já cansaste os olhos, morena,
Porque tu trocas de pele,
Trocas de bronze,

Dos rituais clássicos,
Às interpretações mais modernas,
Das geringonças mais loucas
A mais alta tecnologia

Capaz de encolher gente
De fazer torta de limão
Usando apenas papel, caneta e solidão.

Perguntais do que gosta, morena.
Aposto no choro da criança,
Que vem de dentro de ti,
Das tuas asas de papel,

Do teu bailar no carrossel
De como sobes até o céu
De como santificas o sangue de prostitutas
Que corre de tuas mãos quando escreves.

Tua força épica de configurar-te
De não generalizar-te
De falar sobre artes,

Ah, morena, morena.

Tu manipulas as pupilas,
As minhas pupilas,
E manipula meus olhos,
E se faz menina

A menina dos olhos,
A morena dos olhos,
Agridoce que só.

Vinícius Reis

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Poesia que sobe a ladeira

Eu subia a rua pra enfrentar mais um dia normal, mais um dia repetido de minha rotina aceitável. Subia distraída, sem elegância, sem tentar seduzir às 7 da manhã ou sem perceber quem queria seduzir-me àquela hora.
Com meus passos rápidos de quem já estava atrasada o suficiente para não poder bobear, passei indiferente em frente à padaria, que impunha seu vapor quente na rua fria. Não olhei lá pra dentro, não me interessava nada o que acontecia por ali. Vi, que antes de eu alçançar a porta do estabelecimento já citado, um senhor saiu dali, saiu dali com a calma que a terceira idade pedia.
Vestia-se sem exageros, com um suéter amarelo e uma calça azul marinho. A precata marrom só confirmava o gosto por coisas já ultrapassadas pelo tempo, já fora de moda. Mas tudo bem, eu não iria exigir de um senhor, numa quarta feira pela manhã, que se vestisse como mandava o figurino da passarela. Nunca. Isso não fazia o menor sentido, nem pra mim, nem pra ele. Eu até o preferia daquela maneira. Fazia lembrar meu avô.

Eu me certifiquei que ele saíra da padaria por causa sacola plástica que segurava, sacola que continha um saco de papel com pães e, do lado de fora do saco de papel, um jornal levemente dobrado.
Sem dúvida alguma, havia passado na banca, conversado com o vendedor sobre o último placar de seus times e depois seguira para a padaria.
O fato foi que o velhinho despertou em mim um sentimento novo, inédito.
Os passos dele sem pressa, sem marcar o chão pela pressão que faziam no solo, causaram-me certa inveja aparente que chegou a me assustar. O velhinho não tinha compromisso, não tinha preocupações. E eu havia percebido isso extraodinariamente pelo jeito como ele andava na rua, pelo jeito como vivia as primeiras horas da manhã. Foi fantástico e triste. Foi invejoso e admirador.

A visão de o que o velhinho faria ao chegar em casa foi o que mais me marcou. Eu o imaginava entrando calmo, colocando o molho de chaves em cima da mesa e indo direto para a mesa de café. Mesa que ele já havia deixado posta para não ter que arrumar quando chegasse e correr o risco de o pão e as notícias do jornal esfriarem.
O velhinho suspiraria depois de sentar-se, pois a subida da ladeira o havia cansado bastante. Depois de respirar fundo umas três ou quatro vezes, ele poria café na xícara, veria o líquido fumegar instantaneamente e colocaria o nariz logo acima da fumaça para sentir o cheiro do café e julgar-lhe fraco ou forte. O velhinho, para mim, era especialista em cafés. O velhinho para mim, mais que isso, era especialista em coisas simples e sinceras.
Depois de tomar um gole do café e aprová-lo em relação à sua ''fortura'' ou ''fracura'', ele tiraria o pão mais corado de dentro do saco de papel. Sem se preocupar com colesterol ou coisas do tipo, passaria manteiga à vontade, deixando e fazendo-a derreter dentro da massa.
Já na primeira mordida no pãozinho francês, ele tiraria da sacola plástica o jornal, que com uma manchete violenta, o faria franzir a testa, balançar a cabeça negativamente e depois dizer pra si só: ''Onde é que esse mundo vai parar, meu Deus?''
O velhinho nem lê as reportagens que denunciam violência urbana, prefere se alienar nos resultados dos campeonatos estaduais de futebol.

Seu café da manhã, seu paraíso matinal parece infinito. Nunca termina.
O pão sempre estaria quente, o café sempre no ponto, os gols sempre seriam feitos, e as manchetes sempre seriam violentas (para atentá-lo para a realidade pelo menos uma vez em seu dia).
E ele, para minha graça, sempre estaria a ir comprar seu pãozinho, seu jornal. Naquela banca, naquela padaria, naquela ladeira.
Eu sempre o veria, sempre fantasiaria com suas ações, com seus gostos e nem que fosse por um minuto se quer, eu colocaria poesia e simplicidade nos meus dias. Nos meus dias normais, dias que faziam de minha rotina uma vida aceitável.

H.Reis


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Biografia

Eu sou uma poetinha vagabunda que não mede, e por isso não merece as palavras ditas, os sentimentos sinceros ou o papel gasto.
Eu sou a chuva que cai em seu rosto naquele dia nublado em que nada mais parece ter solução. E ás vezes nem tem mesmo.
Nunca fui o Sol, ele brilha demais. Nunca fui a noite, ela é escura em demasia.
Eu sou a vulgaridade encarnada, eu sou a pura indiferença.

H.Reis

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Fatal

Perguntam-me enquanto poeta:
''Pra que rimar amor e dor?''
É inevitável, caro leitor.
É que a mão força a caneta.

Minto e sinto!
Já não culpo mais o tubo de tinta.

Culpo agora a vida, os amantes
Que berram o amor e o veneno pela garganta;
Mas que saem de mãos dadas ao vento bem vindo,
-Dançantes, não dançarinos-
E que se tremem, gemem escondidos por sobre a manta.

É fatal, pois amor e dor se atraem
Tanto na fonética das sílabas,
Quanto sentimentalmente.

H.Reis

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Selo ''Projeto Creativité''


Acabo de receber este lindo Selo de Qualidade Projeto Creativité de Vinícius Reis, dono do blog ''O Príncipe''.

=)

As regras, como não poderiam deixar de ter, são:
repassá-lo a 15 blogs que me agradem e dizer 10 coisas sobre mim.

Nome: Helena Reis ( na verdade tem mais coisa, mas eu desconsidero por não gostar)
Uma música: Não tenho uma música preferida na vida, sou toda movida por fases. E por agora é ''Quelqu'un m'a dit'' de Carla Bruni.

10 coisas sobre yo:

1- Tô tentando aprender francês sozinha.
2- Sou muito indecisa. Não me dê muitas opções, eu não vou saber escolher.
3- Tô com uma ideia pra um romance. Um romance grande, que me renderá um bom livro; se eu souber escrevê-lo bem.
4- Sou inexplicavelmente apaixonada pelo século XIX.
5- Decidi pelo meu 1º curso universitário. Depois de tanto passear por opções; escolhi definitivamente: Comunicação Social( Jornalismo)!
6- Adoro a madrugada. Mais que o dia, mais que a noite branda.
7- Faço amigos muito facilmente; sou muito comunicativa. Até demais.
8- Eu ainda não sei escolher meu livro preferido. Fico entre ''O Retrato de Dorian Gray'' de Oscar Wilde e ''O Encontro Marcado'' de Fernando Sabino.
9- Sou completamente apaixonada por Oscar Wilde. Leio-o sem parar.
10- Quase nunca escrevo poemas no papel; é mesmo muito raro. Meu processo criativo é mais tecnológico. Não que eu goste disso, mas sou assim.

Fiquei feliz com este selo! Muchas gracias.

Agora os meus indicados:

Carpinejar ( pode até ser que ele não veja, mas eu tentei)

Alguns não foram recomendados aqui por já terem sido no blog do Vinícius, é o caso de Tempos de Morangos e Versos Falantes.

Um beijo,

H.Reis

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ao redor dos cílios

É que meus olhos pularam pra dentro de suas pupilas
Não consegui mais tirar.

São teus meus olhos, são minhas tuas pupilas gigantes.
Meus passos estão cercados por sua esclerótica leitosa...
Na qual caminho sem rumo, sem direção.
Só na intuição de onde estará seu coração.

Mas não penses tu que quero ajuda.
Nem para tirar meus olhos de suas meninas
Nem para encontrar logo o caminho das veias.
Só quero que junto comigo, ensine-me a te amar inteira.

H.Reis

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

#5

Eu finjo que me esqueci pra não justificar.
Eu finjo que está frio pra te abraçar.
Eu finjo dor para um carinho,
Só ao fingir não te amar perco o caminho.

H.Reis

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

#4

Um poeta nunca está sozinho.
Um poeta tem a vantagem de ter a poesia personificada em sua mente, em sua alma.
Um poeta vive até sem ele mesmo.
A poesia é que é insistente.
A poesia é imortal.

H.Reis

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Miss Estereótipo


Secretária. Palavra que inspira pensamentos voluptuosos e sensuais na maioria das vezes.

-Vou pedir para minha secretária te ligar daqui a pouco, ok?

O outro responde um ''ok'' e já vai logo pensando numa mulher de silhueta insinuante, com bumbum perfeito dentro da calça social e uma voz bem sexy mas um pouco irritante, tipo daquelas de atendentes de tele-sexo.

Mas e se a secretária que ligar tiver a voz de sua mãe? Ah, aí o cara broxa.
A intenção dele não era ouvir a voz e os trejeitos vocais da figura materna, e sim da secretária de sua imaginação. Se a deusa imaginada não pular do pensamento dele e ir direto pro outro lado do telefone, ele encurta a conversa com alguns ''aham's'' e desliga logo.

Mas é geral a imaginação que a palavra secretária provoca em quem escuta. Para mulheres ou homens. Ninguém escapa do estereótipo.

Ao separar em sílabas, a explicação para o fenômeno se dá fácil e teoricamente. As sílabas ''secre'' dão um ar de discrição à moça (que ás vezes nem é tão moça assim), o ''tá'' dá outro tom, um tom de ousadia, de levantada de cangote para o cliente sentir o perfume, e o ''ria'' nos faz imaginar a voz rouca com que ela atenderá o telefone e dará a notícia que de '' o chefe encontra-se em reunião''.

Mas não coloquemos tanta expectativa na pobre mulher. Se ela não for discreta, não tiver cangote bonito, nem um bom perfume e a voz de sua mãe ou avó reinar sobre a língua dela, perdoemos.
Afinal, ainda não inventaram concursos para a contratação de secretárias.

PS: Mas depois que inventarem, com certeza os executivos serão menos estressados.

H.Reis

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Meu bem, meu mal

É gracinha, meu bem, teu jeito de ser;
És meiga e tímida como uma potência máxima de pureza presa num pote.
Não se soltes nunca,
Que teu jeito completa o meu, tão errante.

É estranho, meu bem, teu jeito de olhar;
Mas é teu, e olhas a mim como se a primeira vez fosse.
Não me deixes de olhar nunca,
Que meus olhos querem os teus.

É pura cadência, meu bem, teu jeito de andar.
Não sambas na Sapucaí, e sim na Grande Avenida de meu coração.
Não deixes a cadência nunca,
Que minha aorta cede ao teu balançar.

É pura inocência, meu bem, teu jeito de amar.
Tua boca clama meu beijo sutil e desesperadamente.
Não deixes de me amar nunca,
Que meu corpo implora o amor teu.

H.Reis

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Canto-de-se-cantar-chorando

No encantado canto mórbido,
um passarinho cantava.
Cantava um canto-de-se-cantar-chorando.
Mas ele não sabia chorar.
Só sabia cantar.

Cantou, cantou,
A cidade chorou com o canto-de-se-cantar-chorando.
A voz não chorou, só cantou.

Até que de um canto da cidade um tiro foi disparado.
Tudo parou.
O canto, o choro, o encanto.
Tudo desencantou.

Só então a voz chorou.
Chorou o canto de-se-cantar-sorrindo.

H.Reis

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Paris, 23 de dezembro de 1986

Que tenhas um bom Natal, mamãe.

Diga para papai não se esquecer de vestir de Papai Noel e imaginar que estou aí, com os olhos cheios d'água olhando-o barrigudo, vermelho e branco.

Diga para Diogo não se apressar, um dia ele descobrirá que o papai Noel é nosso papai, que por coincidência, também se chama Noel. O nosso papai Noel existe e é só nosso.

Diga para vovó Didi que usarei as meias que ela me der de presente, e fale também que ela terá que inventar uma meia que não seja nem vermelha, nem azul, nem branca, nem amarela, nem verde, nem preta, nem marrom, nem roxa, nem rosa, nem nenhuma cor que existe. Pois nesses 31 natais que vivi, ela me deu meias e todas de cores distintas.

Diga para vovô Carlos não dormir antes da ceia e que aquele aviãozinho que ele me deu no Natal de 60 está aqui, em cima da escrivaninha de meu quarto.

Para Cida diga que sei que a rabanada dela continua a mesma. Me faz encher a boca d'água mesmo em outro continente.

E para a senhora, mamãe, um beijo e minha letra quente. É a maior e mais simples prova de amor que posso mandar.

Estou bem. Arranhei-me outro dia na quina da mesa, mas não se preocupe, já deu casquinha e vai sarar logo.

Espero que venham para meu aniversário,

Edgard.

H.Reis

Desfibrilador

Nunca estou sóbria. No lugar disso, sempre bêbada. Em minhas risadas há uma gota de álcool ilusório. Recomendo. É muito mais saudável.

H.Reis

domingo, 9 de janeiro de 2011

Desvio

Avistei uma moça ao longe.

Ela ia sozinha, chutando a areia branca com indiferença.

Olhou o mar, fez que não viu beleza e voltou a olhar a areia.

Areia que agora estava negra para seus olhos que não enxergaram as águas mais puras. Águas mais profundas e mais velhas deste planeta anil.
Sei que a areia não era mais a mesma, pois eu sou os olhos da moça.

Eu sofri ao não ver beleza no belo, ao não ver brancura no claro, ao não ver amor no pôr do sol. Sofri ao ver a dor onde não havia( no mar, no mar).

Mas que fazer? O corpo era todo sofrimento.

Não podia eu, como olhos, fingir não sentir a presença de um sentimento tão mais forte que o mar.

H.Reis

#3

E do caixa eletrônico sacou um extrato poético. Sacou poesia do banco. Não podia acreditar. Nunca mais quis sair de lá de dentro.

Morreu afogado em navios de extratos poéticos bancários.

H.Reis

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Flatulando

E enquanto esses gases que prendo não aliviarem minha barriga, continuarei sentado nesse sofá marrom que pertenceu à minha vó Marieta.

Minha vó Marieta que era casada com vô Teodoro, que tinha problemas de flatulência. Acho que herdei isso dele, e de vó Marieta herdei o sofá. Velha boazinha mas rígida quando necessário.
Eu, quando criança, juntava-me com vô Teodoro e sentávamos no sofá. Soltávamos os gases presos, próprios para aquela ocasião, a ocasião de irritar a velha com nossos cheiros misturados na sala. Vó Marieta ficava macha.Ela mandava a gente chispar dali.

Agora, depois de 50 anos que vô Teodoro fugiu com uma meretriz que o deixava soltar seus gases onde quisesse; 43 depois de vó Marieta ter-se ido, eu solto meus puns à vontade.

Não solto gases, sou moderno : solto puns.

Vó Marieta deve estar agora se revirando no caixão, e vô Teodoro? Ah, aquele deve estar com sua meretriz no colo, sentado ao lado de nosso Senhor, soltando as flatulências por debaixo da calça de brim desbotado.

H.Reis

domingo, 2 de janeiro de 2011

Transparecer

Continuar.
Palavra que contém a nudez do nu.
Nu que é homem, que é bicho-ser
No contínuo ser do nu, a vestimenta cai leve
E voa , e vai...
No ar

E cai.
Cai no chão gelado, chão nu,
Nu de poeira , de células mortas que caíram da pele nua do bicho-ser.
No contínuo do pó a nudez continua,

E assim o homem
(o bicho-ser)
descobre que tudo é nu.
Tudo é nudez
E só assim se despe de suas máscaras
Antes vestidas, quase grudadas.

H.Reis

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Verdade no Asfalto

Eu quero um suicida que se mate e que se explique.
Não quero os covardes que se matam sem razão;
Quero saber se morreu de amor, de decepção ou xilique.
Mas não se sofreu antes e fez da vida arrastão
Para arrumar uma desculpa e dizer que ''viver não!''

Quero uma meretriz altiva e elegante,
Daquelas que humilham as mulheres ricas;
Fazendo com que sintam que não existia nada antes.
Quero a puta orgulhosa de si, mesmo que atenda pelo nome de Chica.

Quero um mendigo que peça sem vergonha
Que implore sem fingir, sem compaixão
Que deseje o dinheiro do burguês, do típico ''sem-vergonha''
Que deseja a mulher do amigo em seu colchão.

Enfim, quem é impuro? Quem é mau? Quem é pior?
O suicida que, por ele, tem razão?
A meretriz que vende seu calor?
Ou o mendigo que, sujo e verdadeiro, dorme no chão?

Matemos todos, finjamos não existir problema!
Mas, que fique claro, bem claro,
Que eles só são eles no poema
Por que nós os inventamos nessa vida,
E os obrigamos a viver nesse mundo seco e amaro.

H.Reis

Momento Manuel


Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira

domingo, 19 de dezembro de 2010

Onde tudo começa

Tinha um caminho no meio da pedra.
Caminho arriscado, traçado, marcado.
E assim, quanto mais rochas se empedrava,
Mais um caminho no fim se formava-
-A Persistência.

Até que os caminhos juntos formaram um só.
E como um coração que procura a metade
E acaba por achar e se completar,
Os caminhos chegaram numa estrada.
-A Esperança.

Estrada grande, estrada finita.
Até que encontrasse alguém para infinitá-la
E num segundo está aqui o descobridor -
O Mundo!

Olhe no olho do companheiro frio,
do companheiro inglês que não encara,
E encontrarás uma pedra, um começo de caminho-
A Vida!

H.Reis