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domingo, 31 de outubro de 2010

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Qué es el miedo? El miedo soy yo sin consciencia o duda. O sea, el miedo soy yo sin yo.

H.Reis

terça-feira, 26 de outubro de 2010

F de Consolação

Chico, Clarice, Caetano
Todos eles começam com C
Helena, com um simples mortal H
Um H que é ponte,
Que é vínculo,
Mas não tem som, fonema ou fama.

O que me consola um pouco é que Chico se chama Francisco.

H.Reis

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Segredo Escarlate [parte 1]

Da porta de vidro da entrada eu a via. Lá estava ela, deslumbrante como sempre, bem no centro da sala redonda com lustres antigos.
Seu vestido vermelho de alta costura combinava perfeitamente com seu caráter: provocante, mas delineado e preciso.

Do primeiro passo da porta não conseguia ver nitidamente seu rosto, mas sabia que não me decepcionaria. Chegando mais perto, com meus passos leves- pois temia que o encanto se fosse em um piscar de olhos - pude ir percebendo mais claramente a perfeição de sua tez branca e pura. Ela não havia corrompido seu rosto com uma maquiagem pesada. Só usava um batom também cor de sangue como o vestido. O intervalo entre o vestido e a boca era perfeito para que o vermelho não ficasse excessivo ou exagerado.

- Querido, como está elegante! Você realmente superou minhas expectativas!, ela falou com aquela voz delicada e fina e deu uma risada gostosa jogando a cabeça para trás.

- São seus olhos, meu amor. Se tem alguém aqui que está deslumbrante é você!, falei isso pegando sua mão direita e a fazendo girar no centro da sala redonda com lustres antigos.

- Oh-oh! Eu não disse que você está deslumbrante, disse que está elegante. É diferente; ela disse com um rosto sério, depois a face semblanteou ironia e ela riu de novo. Não se assuste, meu bem, estou mesmo um pouco fora de mim. Bebi um drink enquanto você não chegava.

- Ah, sim. Tudo bem, prefiro mesmo você assim, mais livre e divertida. Quando não bebe, você chega a ficar séria demais.

Ela não parece ter dado a mínima importância ao meu comentário e disse:

- Vamos ao jardim? James nos servirá algo gelado enquanto contemplamos o outro e as flores lá de fora.

- Claro.

O caminho da casa até o jardim era curto e ela ia na minha frente. Não ia fazer sala pra mim ou me fazer sentir uma visita, eu já previa.

Chegando ao jardim, avistei logo a mesa e as cadeiras de ferro pintadas de branco. Aquele cenário já fôra palco de muitas conversas e risadas. Sentamo-nos e esperamos James chagar com o ''algo gelado''. Enquanto esperávamos, Beatrice acendeu um cigarro e me ofereceu.

- Quer, querido? Você está precisando soltar umas baforadas de fumaça pra tirar esse peso da sua alma. Se não se descarregar, não vai aguentar por muito tempo. Vamos, pegue um.

Não ia retrucá-la. Não valia a pena. Os argumentos dela eram sempre mais fortes. Peguei o cigarro, acendi, mas não fumaria, deixaria ele se queimar por inteiro até que acabasse.
James chegou com os drinks na bandeja de prata que reluzia.

- Beatrice, pensei que era um chá gelado! Você sabe que eu não bebo, não fumo, não tenho vícios! James, por favor, leve de volta esse àlcool e me traga um chá, nem que seja de carqueja.

Beatrice riu mas não reagiu negativamente. Esperou James desaparecer e disse bem devagar e num tom desafiador:

- Não bebe, não fuma, não tem vícios, mas tem um segredo. E eu sei qual é. Desde o dia que me contou, Harry, tenho uma visão um pouco perversa de você. Nunca mais será o mesmo pra mim.
Por que fez isso, meu amor? Eu te amava um pouco mais antes.

Do drink que ela havia tomado antes de eu chegar não haviam mais resquícios, ela estava sóbria e lúcida. Falava a verdade. Eu já havia percebido seu afastamento de mim desde o dia que havia contado a ela meu segredo. Minha expressão foi ficando vermelha, sombria e enraivecida com a revelação do que antes era só uma observação minha. Eu não poderia suportar aquela indiferença, nem que fosse mínima ou reprimida.

Beatrice bebeu um gole do drink rosado. O líquido desceu pelo interior de seu pescoço fino e aquilo me chamou a atenção. Minha raiva era latente, pulsante e interminável. Sem pensar, levantei-me bruscamente da cadeira de ferro e fui com minhas mãos em direção ao pescoço de Beatrice. Ela não teve tempo de reagir.

Matei-a ali mesmo, no centro do jardim, perto do conjunto de ferro pintado de branco. Nos pés da cadeira que ela estava sentada há alguns minutos atrás, haviam gotas respingadas de sangue.

Depois de me dar conta do que havia feito, comecei a observá-la. O colo de seu seio estava molhado com o sangue fresco. Não havia mais o intervalo de pele branca entre o vestido e a boca. Tudo tinha cor escarlate. Os lábios vermelhos - que me diziam coisas loucas e ás vezes verdadeiras - estavam abertos fazendo com que o rosto demonstrasse uma expressão de consolo tardio. O corpo sem vida deitado no verde era sensual mesmo que sem pose premeditada. Beatrice nunca esteve tão linda.

Quando me levantei, cansado e aliviado, sentei-me na mesma cadeira de antes. Respirei fundo e observei a taça na qual ela havia encostado a boca minutos antes. A boca carnuda e maravilhosa. Tão presente e viva. Ela deixou a marca da boca desenhada no copo e o drink pela metade.

Foi melhor matá-la. Não suportaria ela sentindo a cada dia seu amor por mim se esvair mais. Não suportaria que ela me amasse menos que antes. Eu queria aquele amor completo e inteiro. Perfeito e intacto. Pelo menos agora ela não me amava nada e meu segredo estaria para sempre guardado e intocável em seu corpo cor de leite. Em seu corpo provocante, mas delineado e preciso assim como seu caráter que lhe custou o silêncio e a vida.

H.Reis

terça-feira, 19 de outubro de 2010

As sobremesas da vida

Pessoa mais caridosa que ela não existia. Mais meiga também não. Mais bonita se encontrava sim, mas ela não necessitava dessa beleza física, efêmera e tão visual. Era assim minha vó Amélia.
Sempre gostei mais de vovó Amélia do que vovó Dulce. A razão eu nunca soube. Acho que nossos anjos da guarda se davam melhor.

Os bolinhos de chuva feitos por ela sempre me aguardavam quentinhos em cima da mesa de madeira quando eu era criança. O avental preso nas costas dela nunca estavam impecáveis, ela sempre o molhava lavando a louça ou sujava de açúcar, aquele pra polvilhar os bolinhos. Seus abraços eram gostosos e ternos, e eu, que tinha a altura da cintura dela, quando a abraçava, fazia com que minhas bochechas encostassem no açúcar para que eu, depois, pudesse adoçar um pouco a língua.

Os almoços organizados por ela não podiam sair melhores. Era uma fartura, uma gostosura dessas que só a Sua Vó faz com que tudo dela tenha. Eu, mesmo que estivesse sentado ao lado de mamãe para almoçar, na hora da sobremesa corria pra cadeira ao lado de vovó e, enquanto comia qualquer um daqueles doces maravilhosos preparados por ela, ouvia suas histórias de quando era menina e fantasiava viver naquela época.
Meus domingos não podiam ser mais agradáveis.

Fui crescendo, vovó envelhecendo mas nunca perdendo a graça ou a ternura. Sua lucidez parecia intocável. O ritual de me sentar ao seu lado na hora da sobremesa continuou. As histórias mudaram, ela não me contava mais sobre sua infância. Contava agora sobre suas artes na adolescência e suas escolhas na fase adulta. Eu me deliciava do mesmo jeito. História de vó parece ter sempre um toque de magia. Nunca me pareceu que ela houvesse feito alguma coisa na vida da qual tivesse se arrependido ou percebido que foi mal ou errado. Ela era perfeita.

Certo dia, eu, já com 27 anos, sentado ao lado dela naquela nossa hora sagrada, a disse:

- Vovó, a senhora está sempre a me contar coisas boas que fez, que viveu. E as coisas ruins? E seus arrependimentos? Nunca praticou um ato falho?

- Meu querido, eu esperava que um dia me fizesse essa pergunta. Se não a fizesse, confesso, a julgaria um tonto. Mas te dou um conselho: ''nunca se deve praticar um ato que não possa ser narrado durante a sobremesa.''

H.Reis

sábado, 16 de outubro de 2010

O pior dos pesadelos

A vontade de fazer xixi era maior que qualquer coisa. O voo já tinha sido anunciado e sairia em torno de um minuto. Oque fazer se o banheiro era longe, as malas eram muitas e o tempo mínimo?
A solução mais simples nunca vem na cabeça de um desesperado, ele só consegue pensar no que vai dar errado.

Pensou, hesitou, olhou para o caminho do banheiro, voltou os olhos para as malas e franziu a testa em sinal de reprovação a tudo: ao suco de uva que bebeu demais em casa, ao banheiro complicado e ao seu exagero em trazer tantas roupas só para passar uma semana fora. Esse processo durou uns oito segundos, só tinha agora 52. Por um instante, que não era um, eram cinco, veio a solução mais óbvia(aquela mais simples) : usar o banheiro do avião.

- Mas é claro! Como eu não pensei nisso antes?

Pegou as malas de qualquer jeito e as saiu arrastando pelo longo caminho do aeroporto. A bolsa de ombro que levava quase caiu, o salto quase quebrou e a manga da blusa de frio tapava o relógio de pulso, mas ela não ligava, só se importava em chegar no avião, arrear a calça, sentar e fechar os olhos.

Faltando 30 segundos, segundo suas contas ( que não deveriam estar lá bem certas), ela avista a uns 25 metros uma fisionomia conhecida, daquelas que nunca se esquece (como o dono da padaria em que você, com cinco anos, comprava bala sempre que seu pai te dava 50 centavos ou a empregada legal da casa da sua amiguinha). Mas não era nenhum dos dois; seu Jaci já havia de ter morrido há muito e Jucicleide voltou para o Pará. Quando chegou mais perto viu que nunca havia visto aquela pessoa na vida. Aquilo deveria ter sido alucinação.

Entrou no avião. Nada mais poderia impedi-la de chegar ao banheiro agora. Os metros eram poucos, os centímetros ralos e o caminho livre. Deixou as malas em qualquer lugar e foi direto ao banheiro. Chegou lá como se tivesse passaporte para o paraíso, mas havia uma coisa: a fila não era pequena. Quer dizer, era, tinha duas pessoas, mas para quem está apertadíssimo, não existir ninguém no mundo que ameace a chance de ser fazer O xixi, é a melhor opção.
Só para piorar a situação, alguém, vindo de trás, tropeça e acaba por cair em cima de nossa protagonista, que depois disso não aguentou e soltou a bexiga, ali, no chão do avião mesmo.

Aquela posição de estar deitada, aquele molhadinho no pano, e aquela sensação de não saber onde está, fazia ela lembrar uma coisa bem familiar: xixi na cama.
É, o sono acabou, mas o aperto também.

H.Reis


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Continue precisando

Um dia você não vai mais precisar chorar; não vai mais precisar fingir gostar de quem não gosta; não vai mais precisar dar bom dia ao caixa da padaria; não vai mais precisar parecer achar graça no idiota; não vai mais precisar obedecer ao seu superior; não vai mais precisar renunciar das suas coisas por causa de alguém; não vai mais precisar ouvir aquele seu amigo que insiste em reclamar da vida; não vai mais precisar dar conselhos a quem necessita; não vai mais precisar dormir pensando se seu filho está bem na rua; não vai mais colocar o lixo pra fora ou ouvir a buzina atrás de você no trânsito caótico; nem mais ver a inveja do infeliz; mas quando você não precisar mais de fazer tudo isso, você estará morto, pode ter certeza.

H.Reis

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pequena (in)constante

Cruz e Sousa gostava de névoa;
Baudelaire, de prostitutas e mendigos;
Machado gostava de Helena;
Helena gosta de você.

Sabino gostava de Belo Horizonte;
Clarice, nem sei se da Ucrânia;
Páris gostava de Tróia de Helena;
Helena gosta de você.

Elis gostava de grito;
Caetano gostava de fantasias;
Chico gostava Pedro pedreiro;
Helena continua gostando de você.

H.Reis

domingo, 3 de outubro de 2010

Criança é fogo

Presente grego

Eduardo brincava na varanda com os primos que haviam acabado de chegar. Nós, os pais do pestinha, estávamos fazendo sala para minha cunhada e o marido e com os mesmos assuntos de sempre. Chatos e enfadonhos por sinal.

Minha cunhada, porém, veio com um assunto novo que me surpreendeu:

-Helena, esse quadro que demos a vocês de casamento mudou de lugar por que? Lembro-me que da última vez que estivemos aqui ele estava na parede azul da copa, perto da mesa.

-Ah, eu gaguejava tentando arrumar uma explicação, Eduardo, que... que rabiscou esta parede aqui, então colocamos o quadro em cima justamente para tapar o desenho.

-Ah, mas então temos que dar a vocês outro quadro para colocarem lá na parede azul da copa, por que sinceramente, falta uma decoração ali e esse quadro ficava mesmo melhor lá. Vou conversar com a mesma pintora que fez este aqui e ela fará outro, ainda mais bonito , para colocarem na copa, tá bom?

- Não, não precisa Juliana, por favor, fico até com vergonha.

-Ah, mas ia ficar tão bonito... Não diga não,é presente e pronto.

Fiz uma cara de falsa agradecida e olhei pra meu marido ,que, com o olhar, dizia pra eu não falar mais nada e aceitar logo o presente antes que sua irmã começasse a discutir, e nós sabíamos bem que ela era escandalosa.

As crianças enfim cansaram de brincar e vieram para dentro, estavam cansadas e ofegantes de correr e então Eduardo levou todo mundo pra tomar suco. Depois do suco tomado, coloquei Eduardo no meu colo e dei um beijo, precisava aproveitar a época em que ele ainda cabia no meu colo e que ainda não reclamava dos meus beijos em público,afinal, já estava com seis anos. Enquanto estava sentado ali em meus joelhos e mexia no meu cabelo, ele virou para trás, deu uma olhada desconfiada na parede, cerrou as sobrancelhas, voltou-se para mim e perguntou:

-Mamãe, por que toda vez que a tia Juliana vem aqui em casa você coloca esse quadro na parede?

Criança é fogo

H.Reis

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Risada imersa

Eu rio
Tu ris
Ele ri
Nós rimos
Vós rides
Eles riem

Ainda bem que eu tenho um rio só pra mim.
É por isso que eu rio. Pense só, se eu não risse o rio não existiria e triste eu ficaria.
Sem rio, sem riso.

H.Reis

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Graçamor.

Maçã mordida com furor;
com graça;
com amor.

Limão espremido com fervor;
com graça;
com amor.

Texto lido com terror;
com graça;
com amor.

Amo-te sem pavor;
sem graça;
mas com amor.

(Para uma pessoa, só o amor basta. Pois graça ou pavor são consequências tristes, daquelas que vêm para maquiar o que ainda sobrou do que era bom.)

H.Reis

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Tarados também envelhecem

O velho senhor estava na biblioteca. Não, não lia. Estava sentado na enorme poltrona marrom, segurava sua bengala e tentava não pensar em nada.

A empregada entrou, olhou o velho com a máxima indiferença e começou a espanar os livros antigos da preteleira mais baixa da estante. O uniforme era um vestidinho curto e azul, bonito até.
Quando ela se abaixou para espanar, o velho fez questão de prestar atenção. As nádegas simétricas dela eram as mais bonitas já vistas por aqueles olhos cansados e tarados do senhor. Ele se ajeitou ainda mais na poltrona para obsevar aquilo de camarote. Os seios não tão grandes davam a ideia de delicadeza de busto, coisa bonita em meninas novas.

Ele, lá mesmo da poltrona perguntou:

- Tem namorado, menina?

A empregadinha estranhou. Aquele velho nunca havia dirigido a palavra a ela e agora vem perguntar se ela namorava? Ela hesitou em responder, mas não viu maldade.

- Tenho noivo, por que?

- Ele tem sorte. Pode aproveitar sozinho esse seu bumbum tão bonito!

Ela quase se ofendeu, mas achou bobagem. Aquele velho deveria ser esclerosado ou coisa assim. E também, mesmo ele sendo tarado, que mal poderia fazer a ela? Ele mal conseguia levantar da cama sem ajuda. Então deu corda:

- Pois é, ele nasceu virado com a bunda pra lua; ela deu uma risadinha escondida, se divertindo com o trocadilho mal feito.

O velho se assustou e não disse mais nada. Só resmungou para si mesmo:

- Meu Deus, que menina desbocada. Não se fazem mais empregadas como antigamente.

Ela, com um risinho no canto da boca, terminou seu serviço e saiu muda da biblioteca.

Ele, vendo-se sozinho, disse sem resmungar:

- O noivo dela nasceu com a bunda virada pra lua e ela bem que poderia ter nascido com a bunda virada pra minha janela!

H.Reis

domingo, 12 de setembro de 2010

Momento Kerouac


''Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.''

Jack Kerouac (postado por H.Reis)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Criança é fogo

Alguns dinheiros e a moça legal

Edu já havia completado os seis anos e vivia me pedindo dinheiro. Queria comprar alguma coisa sozinho. Orgulho de criança, coisas de criança daquela idade. Então, eu, mãe coruja e que ás vezes faz os caprichos da cria, dei cinco reais a ele. Deixei ele mesmo decidir oque faria com o dinheiro.

Passaram-se dois dias e nada de Edu falar oque comprou com aquela nota. Eu havia ido buscá-lo na escola de carro e ele, no meio do caminho avistou uma padaria e pediu para que eu parasse em frente antes de seguirmos pra casa. Perguntei oque ele queria lá e ele respondeu:
-Ah, mamãe, a senhora me deu dinheiro outro dia e hoje eu tô doido pra comprar alguma coisa com ele.

Adorei a ideia, estava louca pra saber com oque Edu gastaria aquilo; seria uma cena inédita pra mim. Paramos à porta da padaria, resolvi nem sair do carro, deixaria ele entrar, escolher oque quisesse comprar e pagar sozinho; um pouquinho de falsa independência seria bom pra ele, faria ele se sentir mais ''homenzinho''.
Ele demorou um pouquinho a voltar, mas entrou no carro radiante. Estava com um saquinho cheio de guloseimas, mas aquela felicidade toda não poderia ter sido causada só pelos doces. A outra maõzinha estava cheia de moedas, deveria ser o troco da compra. Admirei-o por não ter gastado todo o dinheiro que tinha.
Perguntei por que sorria daquele jeito e ele me respondeu prontamente:

-Mamãe, aquela moça lá da padaria é muito legal!
-Por que meu filho, oque ela fez?
-Por que você dá ''um dinheiro'' pra ela e ela te devolve um tanto de ''dinheiros'' !!!

Criança é fogo

H.Reis

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Minas Gerais


A contar um causo, a tricotar com a vizinha,a colocar uma broa de fubá para assar( e deixá-la corar como o marrom da cor da terra), a falar uns ''uai'' por aí, a assar um pão de queijo, a passar um café em filtro de pano, a sentar no passeio às cinco horas da tarde e observar as crianças arteiras; assim vivem as senhoras mineiras, a fazer essas coisas.
Vivem no interior, onde é longe da cidade, onde o boi pasta tranquilo e o barulho da carroça avisa que o marido chegou.
A cidade é coisa rara, é luminada e lá vivem gentes cheias dos ''não-me-toques''.
Mas as senhoras mineiras, as que ainda nos restaram, estão felizes em suas cidadezinhas pequenas, em suas cidadezinhas quaisquer.
As goiabas mais gostosas dão no quintal, não se precisa comprar.
Os postes com lâmpadas não são muitos; lá as pessoas preferem a lua como fonte de luz principal quando a noite chega.
As janelas abrem logo cedo, mas devagar, que é pra ser fiel à poesia de Drummond.
Mas não sejamos tão fiéis ao nosso mestre.
Ele sabe que essa vida não é nada '' besta, meu Deus!''.
Ele sabe que essa é a melhor vida que se pode ter.

H.Reis

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Ilusão Agridoce (Antítese)

Vejo-te pela janela do meu castelo.
Você vem em um cavalo branco;
Os pássaros cantam;
Borboletas aparecem no ar
E também em meu estômago.
Meu vestido é lindo.
E feliz estou a te ver chegar.

Você se aproxima,
E sem dizer nada toca seus lábios nos meus
Como se eu fosse uma boneca de porcelana.

Você me faz feliz.
Nós nos fazemos felizes!

Mas a hora da estrela
E também da tristeza chega logo.
Pela janela do meu casebre comum
Vejo você indo embora.
Seu cavalo negro trota tristemente;
As cigarras fazem ruídos irritantes;
Urubus aparecem no ar,
Então meu estômago se embrulha.
Vestida com meus velhos trapos
Estou triste ao te ver partir.

H.Reis

Selos e mais selos


Gente, nosso blog recebeu uns selinhos muito carinhosos e como sempre da Gabi Morgante, dona do Mundo Platônico .
Vamos lá ver oque nos espera.


Alguns desses selinhos pedem para que eu indique outros blogs, ok.


Não vou novamente falar aqui mais nove coisas sobre mim. Vocês já devem ter enjoado de saber da minha vida. E vai ficar muito repetitivo, ok? Rs.
Gabi, muito obrigada pelo carinho e consideração.
Beijinhos de H.Reis pra todo mundo e pro mundo todo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Encaixe

Roça. Repolho.
Rua. Reta.
Roça. Repórter. Respeito.
Rua. Repóter. Riso.
Reta .Ribeira. Refeição.
Ah, vamos logo nadar no Rio da Roça e dar uns Risos do Repórter da Rua Reta que comeu Repolho na Refeição!

H.Reis

domingo, 29 de agosto de 2010

Insônia que leva ao sonho

A insônia abateu sobre mim numa madrugada de sábado. Fui então abrir a janela do quarto para o vento puro e sonolento renovar o ar do cômodo marrom.
- Que vida sem graça! Que noite linda! Como sou velho!
Debrucei-me no parapeito da janela na esperança de ver algum bêbado com o relógio atrasado pelo álcool ou algum marido que fingiria ter o relógio atrasado pelo trabalho. Nenhum dos dois tipos passou. Passaram corujas atentas à procura de algo novo; mas corujas não me interessam, oque me interessa é gente, é fala, é pele, é sorriso ou lágrima.
Passaram então, para matar minha sede de gente e acentuar ainda mais minha insônia, alguns jovens alegres e fortes. Faziam barulho de sapatos distintos, de vozes distintas e de idades semelhantes. Deviam estar voltando de alguma festa, de alguma comemoração, e alguns deles traziam vestígios de estarem tontos, alcoolizados; mas nada os impedia de serem lindos, pois eram jovens, sem medo da vida ou da morte, do certo ou do errado. Alguns cantavam , outros se paqueravam , outros só observavam os protagonistas.
Uma loira de cachos rebeldes e olhos reinventados pela lua era a mais eufórica do grupo; dançava com todos, ria para tudo e fazia jorrar poesia na rua. Ela chegou a me ver, acenou. Eu retribuí o cumprimento. Ela então gritou lá de baixo:
- Vem pra cá, vem andar com agente !!!
Eu, sem dizer palavra, fiquei perplexo. Não pensei nem uma nem duas vezes, coloquei meu hobby vermelho, calcei minhas havaianas e desci escada abaixo. Eles me esperavam na mesma farra, sorrindo, cantando e dançando. A loira me pegou pelos braços e me abraçou com emoção. Eu já não entendia mais nada.Não era preciso entender; fomos chegando ao fim da rua e ao fim de minha velhice, pois agora eu fazia parte daquela juventude tão eterna e deliciosamente poética.

H.Reis

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ave humana


Dentro de mim mora um pássaro. Um pássaro com asas e bico está dentro de meu ser. Suas penas fazem carinho e seu bico não me machuca. Seu canto é o brilho dos meus olhos quando penso no amor, quando penso que o amor pode dar certo. Quando ele se cala, minha esperança se afrouxa, deixando murcha a alma presa em minhas veias. A glândula uropigeana do pássaro corresponde ao meu coração, que ao invés da glândula (que secreta óleo para impermeabilizar as penas) produz amor, para tapar os buracos que a tristeza e a solidão deixaram em mim. Vou sobrevivendo desse amor solitário, que até hoje espera um outro pássaro para completar sua metade e fazer dela uma só.

H.Reis

Será que acabou?

Meus queridos seguidores, já devem ter percebido que não escrevo faz mais de uma semana. Isso é lastimável. Mas é o real, e sabe oque eu acho? Que o potinho que eu tinha no qual era colado o rótulo ''INSPIRAÇÃO'' acabou. É, é muito triste, mas tudo que é bom um dia acaba.
Brincadeirinha!!!! HAHAHA
Mas estou mesmo preocupada, minha inspiração fica cada vez mais escassa.
Tinha que desabafar isso aqui, em meu refúgio mais compreensivo.
Isso deve ser fase. Prometo escrever muitos e muitos mais textos para mim e para vocês, pois é isso que me mantém viva; que mantém viva minha vontade de ser melhor, cada vez mais e mais...
Um beijo dessa blogueira que adora vocês de coração,
H.Reis

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Criança é fogo

O espelho

- Mamãe, compra um espelho pra colocar no meu quarto?
-Claro meu amor, também acho que precisa. Vou falar com seu pai e agente vai comprar no sábado, pode ser?
- Aham, ele fez uma cara de contrariado; dava pra perceber que ele queria o espelho naquele dia, se possível.
A semana passou e Edu só falava do espelho. Eu percebi logo a expectativa criada na compra do obejto, fiquei um pouco preocupada mas depois me desencanei, pois, porque uma criança de 6 anos ia se preocupar tanto com um espelho? E ele me falava que não era um espelho qualquer,que era bem diferente dos que tinham lá em casa.
Chegou o tão esperado dia e fomos lá, a família feliz, comprar o espelho e mais algumas coisas que precisava.
Entrando na loja, Edu avistou um funcionário, que ele reconheceu por estar com o uniforme da loja e foi logo perguntando:
- Moço, tem espelho aqui, né? Acho que se o vendedor falasse que não, Edu teria um treco ali na hora.
- Claro que tem, quer que eu te mostre alguns modelos?
Eu estranhei aquela cena; como um vendedor oferece ''mostrar alguns modelos'' de algum produto para uma criança de 6 anos e sozinha? Fui lá acompanhar o precoce. Cumprimentei o vendedor com uma cara de reprovação e fomos ver os tais modelos de espelho. Aquela história já estava me cansando.
Chegamos no local onde ficavam as peças e o funcionário foi mostrando cada uma, Eduardo dizia que não era aquela que queria, e nem aquela ali.
Chegando na penúltima peça à mostra, eu perguntei:
-Mas, meu filho, acho que o espelho que você está querendo não existe. Já olhamos todos, de tudo quanto é jeito e não é oque você quer! Explica pra mamãe como é o espelho que você tá procurando.
Eduardo ficou calado e girou os olhos por toda a loja para ver se encontrava o que queria. Logo depois, os olhinhos negros dele deram um salto e ele disse:
- É aquele ali, mamãe! É aquele ali! Apontou para o teto e sorriu!
Eu não acreditei no que estava acontecendo.
- Mas meu filho, pelo amor de Deus, você quer um espelho para colocar no teto do seu quarto?
Eu já estava constrangida e o vendedor dava risadas abafadas daquilo tudo.
-Onde você viu um espelho desses, Eduardo?
Ele, com os olhinhos ainda saltitantes e brilhosos, disse:
-Ah, mamãe, lembra aquele dia que eu fui brincar na casa do Luiz Fernando?
- Aham!
-Então, agente foi brincar no quarto da mãmãe e do papai dele e lá tinha um espelho desses, bem encima da cama. Então eu também quero um. É legal né?
Criança é fogo!

H.Reis

domingo, 15 de agosto de 2010

Mais que luto...


Um professor, um amigo, um companheiro nosso, Cléber Viana, faleceu; e nós, Letícia e eu, estamos muito tristes e queremos manisfestar essa tristeza. Ele foi uma pessoa que fez diferença na vida de seus alunos; as aulas dele não eram aulas de espanhol ou literatura espanhola; eram aulas de vida e sensibilidade.
Cléber, nunca te olvidaremos!


H.Reis, eterna alumna suya.

sábado, 14 de agosto de 2010

Este Blog é Bipolar

Olá seguidores queridos, o Gota de Limão foi indicado pelo blog da Gabi Morgante , Mundo Platônico, para o selinho: ''Este blog é bipolar''.


Fiquei surpresa e felicíssima com a indicação. Agradeço muito à minha querida colega blogueira Gabi. Seu blog é mais que indicado aqui!
Mas não é só isso ,pessoal. Existem regrinhas. É; tenho que indicar outros blogs e ainda contar dez coisas sobre mim.
Então vamos lá, né? Depois de ter um blog indicado para uma coisa legal, contar dez curiosidades sobre você não deve ser difícil.

1- Sou noveleira. Ah, é genética. Minha avó também é.
2- Sempre rio quando estou nervosa; então, se me contar que alguém morreu e eu der um risinho, não se ofenda.
3- Tudo, tudo o que acontece à minha volta eu tenho vontade de escrever. É tudo poesia pra mim.
4- Amo café, mas nunca tomo puro, só com leite.
5- Meu brigadeiro faz sucesso.
6- Me imagino como professora de Literatura. (?)
7- Odeio estereótipos.
8- Faço amizade muito fácil.
9- Acho Napoleão Bonaparte um charme.
10- Meu filme preferido da infância é Polegarzinha.

Blogs indicados:


Adorei fazer isso, muito obrigada pela oportunidade, Gabi.
E também muito obrigada a todos os meus seguidores. Sem vocês, não tem blog.
Beijos, H.Reis.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A velha mais confusa

Eu sou uma velha que todos pensam que não pensa. Sou ''esclerosada e psicótica''. Esquecem-me na frente da televisão por quase um dia inteiro e vão para seus afazeres. Não percebem nem sabem que vejo e analiso tudo. Reparo que falam de mim, que me julgam. Vejo meu neto se entreter com Machado de Assis e faz ele muito bem. Vejo minha neta de 14 anos conversando ao telefone, dizendo à amiga que o teste de gravidez deu negativo ''graças a Deus''; isso por que ontem mesmo eu a ouvi jurando para a mãe ser virgem. Vejo meu genro enganando a trouxa da minha filha. Vejo nos olhos de minha filha que sente pena e dó de mim; porque agora não sou mais tão ''viva'' quanto era antes.
Para todos, só funcionam os meus olhos. Mas meu cérebro está aqui, mais ativo que nunca, fotografando as mais simples cenas cotidianas. Eu era escritora. Não dá pra acreditar? É, deve ser mesmo estranho ver um texto tão confuso como este e depois saber que foi uma escritora que o ''escreveu''. Não , não escrevi; é meu cérebro que registra. Está mais vivo que nunca. Já disse isso? Pare de ler isto; vá me julgar como os outros. Pense que sou sim uma velha ''esclerosada e psicótica'' que nunca foi jovem. Deixem meu cérebro em paz, pois assim, julgado como ''estragado'' ele pode funcionar sossegadamente.
É, eu disse a tempo a todos: ''É inútil lutar. Deixem-me morrer jovem.'' Mas estou velha e veja como acabei: esquecida em frente à uma tela de comerciais e programas capitalistas. Mas pelo menos me resta meu cérebro.
Ah, esqueça! Você, jovem, nunca entenderá o valor do cérebro na velhice.

H.Reis

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Momento Virginia


''O preço barato do papel é a razão por que as mulheres começaram por ter êxito na literatura antes de o alcançarem noutras profissões.''
(Virginia Woolf) postado por H.Reis