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sábado, 13 de agosto de 2011

Tão simples

É que é a é vida tão simples

Como colocar os óculos e senti-los encaixar no óleo das têmporas;

Como ver um cachorro coçar sua orelha esquerda e depois olhar pra baixo, pro chão.


O que a complica são outras coisas;

Como os óculos, mesmo na oleosidade macia dos lados, não encaixarem nas tais têmporas

Ou como quando o cachorro, ao olhar pra baixo, vê que da orelha que coçou há pouco, caiu uma pulga espertalhona

Aí as coisas complicam.

Pois agora os óculos entram forçados

E a pulga tem que morrer e o cachorro se cansar.


A morte é tipo isso.

 A complicação, a decepção e o fim das coisas simples.

H.Reis

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O preço do tempo

Três meninos passam com três pipas na mão
Três pipas? Três sonhos? Não.

As pipas que vão ao céu levam junto os sonhos do meninos
Sonhos bobos amarrados nas rabiolas coloridas
Sonhos que ficam grandes e magníficos ao encontrarem a imensidão

Imensidão nem imaginada na cabeça dos três meninos ou das três pipas.

E daqui há alguns anos? Sabe-se lá onde estarão os meninos, onde estarão as pipas.
Daqui há alguns anos os meninos hão de ter crescido, hão de ter largado as pipas.

E quando passarem, atrasados para o seu serviço, e verem cair, ao seu lado, uma pipa de criança
Os meninos, hoje homens, vêem ali seus sonhos caídos.
Seus sonhos que um dia alcançaram a imensidão do céu da infância
Mas que agora não alcançam nem a sua altura.

H.Reis

domingo, 10 de julho de 2011

Quem?

Se você tem um chapéu, um cigarro e um copo
Se você tem uma casa, um chão de terra e muito amor pra dar
Se você tem a si mesmo, tem a cidade, tem o pó que o carro levanta ao passar devagar

Se você tem olhos claros, negros, ou indecisos
Se você tem olhos quaisquer para ver minha beleza inexistente

Se você tem nariz grande, fino ou indeciso
Se você tem um nariz qualquer para sentir meu corpo-cheiro

Se você tem lábios grossos, retos ou divididos
Se você tem lábios e língua pra dizer que me ama.

Se você é esse alguém...
Não tenha dúvidas.
É com você que eu vou ser feliz pra sempre.

H.Reis

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Imposição

E se seu nome todavia não regesse toda a minha vida,

Eu o inventaria

                                        Eu o faria importante

                                                                                                                                             Eu o faria infinito.

E fim.

H.Reis

terça-feira, 28 de junho de 2011

Poesia Involuntária

A menina escreveu um poema com a naturalidade em que se coça a sola do pé.
A sola do pé virou poema,
E a menina, poetisa.

H.Reis

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Poema-Perdição

Inspiro-me,
                                                             distraio-me,
e por isso

não escrevo.
E perco o poema.


Inspiro,
                                                                   expiro,
respiro.

Nem que quisesse perderia a respiração.

Quem sabe talvez se a prendesse, assim como não posso fazer com minha inspiração poética.
Quem sabe assim eu a perdesse.
Mas se prendesse a respiração, mataria-me.
E então seria eu uma mulher morta ou uma poetisa?


Nada disso.
Seria eu uma inspiração para uns próximos poetas.

H.Reis

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Desabafo de uma Louca

Tenho vícios fracos, não sou concisa e como poderia, desse modo, ser equilibrada?Em minha prolixidade os sentimentos encaixam-se na bagunça e excesso de palavras.

Se te amo, amo por excesso, nunca por falta ou perda de um pedaço do meu sentimento, pois eu sei exatamente onde ele se encontra.

H.Reis

O Sofá Amarelo

Titia Eulália não saía daquele estofado amarelo desbotado e se perguntada o por que, a velha dizia sempre na mesma irritação:
- Foi presente de papai no dia de meu casamento. Não me desfaço dele! Tem valor sentimental.
E todos aceitavam, achavam ser mais uma daquelas manias de gente da idade de titia Eulália. Não tenho certeza, mas devia ter ela lá pros seus 78 anos.
Havia tido uma vida sofrida, perdeu dois filhos ainda no ventre, o marido fugiu com a vizinha para depois voltar com uma mão na frente outra atrás exigindo abrigo de pronto; e ela, como muito apaixonada que era por Tio Eustáquio, perdoou-o e o acolheu imadiatamente. E recentemente sua casa havia sido levada por uma enchente devastadora que quase a matou; mas acabou matando, decisivamente, Vênus, seu cachorrinho adestrado.
Nunca havia sido bonita. A verruga que trazia no pescoço desde que nascera a enfeiara para sempre. Era uma sina eterna, já que ela tinha aversão à dor e nunca se dispôs a ir ao médico tentar tirar aquela coisa. Chegou uma vez, no auge de uma bebedeira, dizer que era seu charme e que titio adorava. E foi naquele dia que tive pra mim que ele a havia deixado exatamente por aquele pedaço de pele morta e negra incrustada em seu cangote.
Os filhos eram um desgosto só. Maria João foi ser mulher da vida na capital, que lá era mais comum. Dois meses depois, titia recebia uma carta do cafetão da menina dizendo que ela havia pegado doença de mundo, caído de cama três dias e falecido logo em diante. João Maria, o outro filho, era o único em que ela depositava esperança, mas foi só ele se apaixonar por Elvira para sumir com ela Rio de Janeiro abaixo. Notícias dele nunca mais.
E titio Eustáquio descobriu um câncer de fígado, coisa já esperada, pois o velho sempre havia bebido todas e mais algumas. Morreu, sem ter parado de beber sequer um dia, um ano e seis meses depois da descoberta fatal.
Enfim, Titia Eulália ficou só e veio morar aqui em casa. Éramos os únicos da família aqui no Rio, e mamãe, sempre muito hospitaleira, acabou acolhendo-a sem pensar duas vezes.
Chegou aqui sem mala, nécessaire ou coisa do tipo. Só vinha com um negrinho forte atrás dela que trazia nas costas o velho sofá amarelo ‘’ que foi presente de seu pai e ela não desfaz por nada, tem valor sentimental.’’
Já fazia sete meses que estava aqui, ou melhor dizendo, naquele sofá amarelo. Não fez questão de ter uma cama, disse que só queria dormir naquele sofá.
Tomava banhos rapidíssimos, quase não usava o banheiro e quando escovava os dentes era no quarto onde ficava seu sofá. Não tirava o olho daquilo.
Todo mundo já estava estranhando aquilo, mas ninguém questionava ou incomodava com aquela esquisitice.
Veio então o dia em que titia Eulália teve um ataque de febre fulminante, não conseguia nem andar e então tivemos que chamar o médico.
Doutor Oliveira não nos deu esperança, disse que ‘’essa senhora está morrendo de velhice. Só os resta esperar’’.
Mamãe foi logo poupando os gastos para pagar o caixão da velha.
Até que duas semanas depois, nossa titia empacotou-se.
O velório teve de ser em seu quarto, já que ela havia implorado que só queria sair do sofá para ir direto pra debaixo da terra e se pudesse queria ser enterrada com tal o objeto de adoração.
A casa encheu-se de parentes, vizinhos e amigos lá de onde titia morava. Velhas chatas e inconvenientes brotaram lá em casa para dar o último adeus. Até que uma veio conversar comigo, vendo que eu não estava triste o bastante para ser sobrinho da defunta.
-Você não vai sentir falta de sua tia? Não parece triste.
-Ah, vou. Mas confesso que pouca. Titia passava a maior parte do tempo deitada ou sentada nesse sofá desbotado. Alisava, limpava, conversava e até beijava o pobre.
A amiga da falecida comoveu-se:
- Verdade mesmo? Fico tão feliz que Eulalinha (as velhas amigas a chamavam assim) tenha gostado desse sofá que lhe dei. Eu não dei zero bala, até por que não tinha condições, mas foi de coração. Não sabia que ela havia pegado tanto apreço nesse sofá.
Eu estranhei:
-A senhora foi quem deu esse sofá pra titia? Mas ela vivia dizendo que foi presente do pai dela, de casamento, que tinha valor sentimental.
-Ah, sua tia já não estava boa dos miolos quando veio pra cá. Fui eu quem deu pra ela de presente quando a enchente levou a casa dela.
Não discuti, se levasse a conversa pra frente insistindo que o sofá havia sido presente de vovô, a velha senhora poderia ficar ofendida, pensando que eu a julgava louca.
O velório seguiu a madrugada, o enterro foi pela manhã no cemitério municipal e eu resolvi não ir. Ficaria em casa para desvendar o ‘’mistério do sofá amarelo’’.
Logo depois de todos saírem, fui direto para o quarto que agora não tinha mais dono. Cheguei perto do estofado que fedia a gente morta há poucas horas(se é que existe esse cheiro) e o toquei com nojo. Observei durante alguns longos minutos o objeto em minha frente e não percebi nada de diferente. Fui, frustrado, esperar todos voltarem do cemitério.
Mamãe, exausta, chegou em casa e foi direto para o ex quarto de titia. Abriu as cortinas, levantou a cadeira da escrivaninha e soprou o pó do canto da janela.
Cansada, sentou-se, sem maldade, no sofá da defunta e sentiu, na nádega esquerda, uma espetada profunda. Chamou papai que, sentando em outra parte do móvel, espetou a nádega direita.
Estranharam, fecharam a testa num ato de espanto e tiveram a ideia de destruir o sofá para descobrir o que tinha ali dentro que espetou as duas bundas naquela brusca profundidade.
Assisti à destruição. Aquilo sim me pareceu o enterro de titia Eulália, pois estavam dando cabo na coisa única coisa que ela tinha e que mais adorava na vida.
Depois de muita espuma barata ter sujado o chão do quarto, papai tirou de lá de dentro, numa surpresa unânime, um diamante enorme, lapidado, com uma ponta fina que parecia até ferramenta de tortura da Santa Inquisição. Absurdado e sem dizer palavra, papai continua a ‘’cavar’’ o sofá e encontra ali mais uma pedra idêntica no tipo, mas um pouco menor.
Havíamos então descoberto o por que do apego de titia Eulália pelo sofá feio e desbotado: o amor dela pela fortuna oculta amortecia as espetadas dos diamantes lapidados em suas nádegas murchas.
H.Reis

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Momento Graciliano

Heloisa e Graciliano Ramos


''Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a minha alma inteira, deixe-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te.''

(Cartas de Amor a Heloisa - Graciliano Ramos)

sábado, 4 de junho de 2011

Imersão

E depois que bebeu,
na única taça que tinha,
seu vinho caro,
velho
e quase doce,
o poeta entrou em devaneios.

Riu da mulher que viu morrer no meio-fio.

Tripudiou em cima do marido traído.

Sentou-se à escrivaninha de jacarandá
e percebeu que a única coisa que sabia
era escrever.

''- Viver a vida é coisa muito difícil''

E começou um novo poema.

H.Reis

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Momento João Cabral


Difícil Ser Funcionário

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

(João Cabral de Melo Neto influenciado por Carlos Drummond de Andrade)

Postado por H.Reis

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Felicidade

Cidade pequena é assim.
Solta pipa, compra pipoca, vê menino correr perigo.
Carro vem, carroça chega e se encontram na esquina.
O dono do carro diz:
‘’Ô, sangue bão!’’
O carroceiro responde:
‘’Ô, meu irmãozinho!’’
E seguem a vida em frente na estreita estradinha.

Pé no chão, nas pedras da rua principal,
E o menino corre de baixo a cima, de cima a baixo;
Vendo sua pipa cair,
Vendo a menina bonita passar,
E a vida passar junto com ela.
E assim já perdeu a pipa,
Mas a menina continua lá,
E a vida mais viva ainda está
Na cabeça e no coração do menino.

A menina bonita que passa
Sente o vento lamber os cabelos
E as pernas que o pai não deixa mostrar.
Mas as pernas são exteriores;
Sentem as delicias das ruas,
Mesmo que dentro das saias.
- "Papai não sabe de nada!"

A dona de casa saiu da feira,
E vai passar na costureira
Pra encomendar vestido pra filha mais velha que vai se casar.
A dona de casa vai fazer a festa
Feijoada, torresmo, doce de leite
E pra beber? Cachaça ardidinha que não há melhor
Pra festejar? Não o casamento
Casamento é pretexto.

Vamos festejar o carro, a carroça
O menino, a pipa
Vamos festejar a menina, as pernas, as saias
A dona de casa e seu amor pelo amor
Vamos festejar a vida que sopra no coração
dessa cidade pequena.

H.Reis

domingo, 8 de maio de 2011

Momento Adélia


Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

(Adélia Prado)

sábado, 30 de abril de 2011

Tudo joia?

Tenho reparado já há algum tempo (e posso assim até dizer que ando fazendo uma pesquisa e que guardo os dados dela na cabeça) a falta de respostas em que o mundo hoje se encontra. Desde as coisas mais banais até as mais sérias e arbitrárias possíveis.

Tive esse estalo outro dia ao estar dentro de um ônibus fazendo uma pequena viagem, coisa que faço quase toda semana, ao ir passear em minha cidade natal.
O ônibus estava cheio, eu estava em pé e também a maioria do passageiros.

Entrou então um rapaz lá pros seus 29 anos, mas isso não importa. Entrou, quietou-se em pé num lugar e começou a conversar com algum conhecido que já estava sentado por ali. Logo depois entra uma moça, até bonita, com uns olhos claros e o cabelo castanho, mas isso também não faz a mínima diferença, só gosto de caracterizar os participantes para fazer dessa leitura uma coisa mais imaginativa ou divertida. A moça, enquanto pagava sua passagem, reconheceu o tal rapaz de 29 anos, sorriu pra ele e perguntou :

- Tudo joia?

Ele, ao invés de respondê-la fez a mesma pergunta, só que do seu jeito mais malandro:

-Beleza?

E ficou assim! Ela não respondeu, ele não respondeu. E se nenhum dos dois estiver ''joia'' ou ''beleza''? Como fica? O que se faz? Mas isso também não satisfaz a minha pergunta, por que se os dois tivessem respondido à perguntas, respectivamente, as respostas seriam as mesmas:

- ''Tudo bem sim.''

- '' Tô Tranquilo.''

Mas eu duvido que esteja tudo assim ás mil maravilhas. Assim como não está nesse nosso planeta. Faz-se perguntas a todo momento: ''Por que as torres gêmeas foram implodidas?''
''Por que aquele menino entrou na escola que estudava e matou 13 crianças?'' E então vêm-se as respostas mais absurdas, que não respondem nem justificam tais atos.

Sei que chega a ser quase ridículo comparar a falta de resposta para esses fatos com a falta de resposta para um ''tudo joia?'', mas fez-me formular a teoria de que é um mero reflexo. As pessoas desistem de responder, pois elas também não tem respostas para as coisas mais questionáveis e que realmente precisam ser esclarecidas.
Uma vez, ao conversar sobre um pouco disso com um colega distante mas querido, ele disse:

''-Criatividade e Rotina são palavras antagônicas, deixa pra lá. É assim que funciona: respostas previsíveis pra perguntas da mesma laia. Na inevitável pergunta "tudo bem?", é muito mais fácil dizer que está tudo ótimo do que dissertar sobre as peculiaridades da alma, do momento e da puta que o pariu em crise existencial. Por trás dos "tudo ótimo", há sempre uma pequena fração de sutilezas a serem consideradas. Enfim, falei demais. ''

Enfim, pensei demais. Mas eu realmente espero que esteja tudo bem pelo menos para aquele casal do ônibus.

H.Reis

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Momento Quintana

Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.

(Mário Quintana)

terça-feira, 26 de abril de 2011

#6

Os ossos de seu magro pescoço me engolem sem ajuda umidificante; nosso amor é seco.

H.Reis

terça-feira, 19 de abril de 2011

Com todo respeito, Manuel Bandeira


É quem escreve versos livres
Rimas ricas mas não aparentes.
É quem não liga pra falta de eira ou beira
É Bandeira.


É quem não gostaria que eu rimasse seu nome
E é por isso que a partir daqui serei como ele
Livre, leve, solta, veloz ou devagar...
Imitando Bandeira.


Cidades reais ou imaginárias
São por ele (re)criadas e contadas
Com a maestria de um Deus da geografia poética
Com a sensibilidade de um Deus da poesia geográfica do coração.
É Bandeira.


É quem faz versos como quem morre, como quem vive, chora ou sorri.
E se uma lágrima cair e borrar a caneta? E daí?
Será ainda a mais autêntica e original poesia
De Bandeira


É quem me encanta, me canta, me acorda e até me faz dormir
E nas letras de sua poesia faz subir ao céu e brilhar pra mim a Estrela da Manhã
Que virá a se abaixar só em Pasárgada
Com Bandeira
(como Bandeira)


É que brilha no céu do meu olhar, Poeta Favorito
E como se me conhecesse há séculos
Descreve-me sempre e revela a todos os meus segredos em massa
Mas tudo bem, não me importo
Tens comigo carta branca,
Pois és simplesmente meu Poeta Favorito novamente,
Imortal e Querido Bandeira.


H.Reis em simples homenagem aos 125 anos que Manuel Bandeira estaria fazendo hoje.

sábado, 16 de abril de 2011

Ode à ''Não Ida à España''

Ó, España querida, não me verás por agora,
Pois te perdi pra um poema.


Ó, Reis Católicos, não visitarei seus túmulos ou mausoléus nesses tempos,
Perdi-os pra um poema.


Ó , Plaza España, não respirarei teu ar da manhã ou da tarde
E nem a noite me acolherá, pois a perdi pra um poema.


''Mis desayunos''* serão por aqui mesmo.
''Galletas?''** Nem pensar! Foram comidas por um outro poema.


Granada e sua Alhambra imortal não me verão entrar por suas portas triunfais.
Pois um poema entrou antes e fechou-as pra mim.


Fiquei do lado de fora, do lado de fora de mim, do lado de fora de España.
España que agora tenho nas mãos, España que agora pra mim é esse poema.

E só.


H.Reis



*Mis desayunos : Meus desjejuns
** Galletas : Biscoitos

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sonho Ladrão

Perdi um poema. Tive uma inspiração na hora de dormir.
Hora de dormir é hora de dormir, o poema que durma junto se quiser.

A inspiração vazou pelos poros dos meus sonhos e foi se alojar no inconsciente.
Inconsciente que não consigo mais alcançar.

E então, pra não perder o papel, o fio da meada e o poema, escrevo esse sobre a inspiração perdida pro sonho.

Sonho ladrão de poemas, sonho ladrão de almas.
Sonho que me inspira a escrever poemas pra perdê-los novamente.
Sonho, não sei que juízo fazer de ti.

H.Reis

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Simultaneidade de Bandeira Oculta

Era começo de namoro. Ano de 1968, sabe como é. Gente discreta e recatada. Sabiam pouco um do outro.
Os dois liam Manuel Bandeira, o poeta morto naquele ano. Nenhum dos dois tinha ideia da leitura do outro. Então, no dia em que ele sentiu uma intimidade maior, disse:

-Você não é Antônia, mas parece uma lagarta listrada.

Ele não esperava que ela entendesse, respondesse ou desse importância. Mas ela surpreendeu:

- Uma lagarta listrada que usa o sabonete Araxá.

E então os dois deram as mãos e saíram em passos leves pela Rua da Constituição, onde Misael havia matado Maria Elvira (que vestia um organdi azul) com seis tiros.

H.Reis

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ambiguidade Clássica

São sete as artes.
São sete os pecados.
Logo, arte é pecado ou pecado é arte?

Vejo um poema jogado em cima da cama.
Cansado, ofegante.
Luxurioso poema.

H.Reis

quarta-feira, 30 de março de 2011

Momento Bandeira

Poema de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.


Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.


O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

(Manuel Bandeira)

domingo, 27 de março de 2011

Loucura Antropofágica.

Eu não publicarei livros.
Nunca.
Eu não publicarei ''centelhas a iluminar imaginação '' de ninguém.

Eu vou digerir Bandeira, vou comer inteira a obra de Drummond.
Eu sou antropofágica.
Eu não presto, não viro do avesso, não caibo em palavras ou em símbolos e pontos.

Eu vou é viver a vida.
Vou publicar minha vida e viver só dentro dela.
Sou o puro Surrealismo.

H.Reis

sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu Faísca

Eu sou morena,
Eu sou menina,
Sou quase mulher.

Eu sou dos olhos
Sou da boca,
Sou carvão.

Deixo marcas de lábios, pele,
Luar, vida, meia-morte, solidão.

Minha caneta é mais fraca,
E por isso não exprime
O desejo e a força
Que me meu carvão em ti imprimiria.

Moro em ti, habito em nós.
Há espaço pra minha boca, pro meu carvão
E pros meus olhos sagazes.

Que te deixam encabulado só de encará-los.

H.Reis